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'Não se pode esperar nada de ninguém. Mas de você, espere por tudo.' (Camila Barretto)

Bem vindo aos meus pensamentos.

Efeito Girassol.


 
Quando olhar para trás, espero que leve contigo a certeza de que tudo não passou da real explicação do que é viver a vida intensamente. Seja, intensamente, você mesmo, e viva, corajosamente, com o coração.
 
CAPÍTULO 1 - A HISTÓRIA DE OTÁVIO E CECÍLIA.

 
“Eis aí o meu problema de sempre: eu tenho o poder de atrair algumas pessoas pra perto de mim”, refleti um tanto arrependida, olhando um girassol murcho através da janela do meu quarto. Parei de regar aquele caco de flor desde a última vez em que nos vimos, e acho que, assim como você, eu não gosto mais de girassóis como antes. Já passava da meia-noite, mas a lembrança daquele rapaz tímido que conheci a seis meses atrás, vinha à minha cabeça, insistentemente, como se houvesse entre nós um assunto mal resolvido. “Foi tudo culpa minha. Se eu não tivesse o procurado primeiro, nada disso tinha acontecido” – ponderei, só para me afundar ainda mais na culpa, talvez, nunca existente. Antes de pegar no sono, lutei um pouco mais para manter os olhos abertos, apenas para poder lembrar, com mais detalhes, como tudo começou, e assim, tentar descobrir onde foi o momento exato do meu passo em falso. Otávio Maia pôde sentir os reflexos desse infeliz efeito que me persegue.
*
Nos conhecemos há pouco tempo, pois, recentemente, ele se mudou para a minha pequena cidade. A força do trabalho nos apresentou. Precisando, com certa frequência, dos meus serviços publicitários, ele sempre ligava para a agência em que eu trabalhava a fim de encomendar algum projeto pra seu estabelecimento recém-inaugurado. Otávio era formado em Direito há quase dez anos, e havia trocado sua carreira sólida em um famoso escritório de advocacia, para se dedicar ao que sempre gostou de fazer: trabalhar com café e livros. Acho que muitos o chamaram de louco, mas algum tempo, ele começou a achar que na sua vida faltava viver uma experiência de risco, e permanecer num estado de letargia, era de fato, a maior loucura que um homem jovem como ele, poderia fazer. Eu também não queria ficar naquele emprego pra sempre, presa a milhões de catamênios e pessoas vazias, mas, como de costume, me empenhava para dar o meu melhor. Apesar de tudo, eu gostar do que fazia, mesmo reconhecendo o fato daquele trabalho ser muito desgastante para a minha qualidade de vida. Pontualmente, eu chegava às sete horas da manhã e não tinha hora para ir embora - a moda da publicidade havia chegado com tudo às vitrines daquela região ascendente. Também estava em jogo a recente promoção que eu acabara de receber. Se eu pedisse para sair mais cedo (para poder fazer uma atividade relaxante, por exemplo), aos olhos do meu chefe supremo, significaria que eu não estava tão interessada, assim, em crescer na vida. Ora, eu só queria ter mais tempo para viver de verdade
 
Assim como eu, nas horas vagas, Otávio era um autor independente, mas, nunca aceitava quando eu dizia que ele era um nato escritor. Não, assim, explicitamente. Ele era, de fato, muito modesto, embora eu considerasse seus rascunhos impressionantes e dignos de um roteiro de Hollywood. Eu, ao contrário, sonhava em autografar livros de fãs em alguma festa de lançamento, mas morria de medo de ficar demasiadamente exposta às impiedosas luzes dos holofotes. Tenho pra mim que ele decidiu abrir um charmoso e pequeno café, para divulgar o seu trabalho à sua maneira, caso um dia mudasse de ideia. Café Cultura, era o nome do seu sonho promissor – e acabou sendo o meu também. Ao fundo da lojinha climatizada, improvisou uma livraria aconchegante onde vendia os best-sellers mais comentados mundialmente, juntamente com o meu primeiro e único livro lançado, que só 1% de algum lugar do mundo já leu. Segundo o Otávio, isso não significava que o livro não fosse incrível, só era seleto e reservado em demasia, e por isso, eu precisava perder esse medo de ficar escondendo os meus dons para as pessoas. Nos últimos meses, ele acompanhava de perto o meu trabalho literário e se dizia um grande admirador, me fazendo rir quando falava que ia abrir um fã-clube oficial em minha homenagem. Sentia-me, enfim, intimamente privilegiada por ter o seu negócio charmoso a cinco minutos de meu escritório frio e sem graça, e muito mais, por ele ser o meu mais novo cliente e admirador de minha única obra-prima 
Certo dia, Otávio me mandou um e-mail e eu achei muito curiosa a forma que ele escrevia: cheio de pompas e formalidades, algo típico de uma carta enviada ao Rei de Portugal no século XVIII. No mundo de hoje, onde tudo é tão rápido e abreviado, seus pedidos para o envio de um simples orçamento atendiam às normas gramaticais vigentes, sem sequer deslembrar de empregar uma vírgula ou de fazer uso de um cumprimento cordial na despedida. Eu não estava acostumada com isso. Os outros clientes, malmente redigiam um “obrigado no final do texto. Mais engraçado ainda, era quando ele ligava pra mim. No início, apesar de sempre nos tratarmos com tamanha solenidade, havia alguma cumplicidade nas nossas conversas por telefone, as quais nunca duravam mais que dois minutos. Estranho que eu sentia uma vontade enorme de perguntar como havia sido o seu final de semana ou como andava a sua família, mas, pelas regras da razoabilidade, nunca tinha feito isso, não antes de ele perguntar algo da minha vida primeiro.
Ressalta-se que, até então, nunca tínhamos nos visto pessoalmente, mas, era notório que, pouco a pouco, essas ligações foram nos aproximando. Durante muitas semanas, esporadicamente, a gente se telefonava após o expediente, e quando eu sabia que era ele do outro lado da linha, sentia estar restabelecendo o contato com um velho amigo de outra vida, embora sempre tentasse não evidenciar [tanto] essa minha afeição. Otávio parecia à vontade, embora tímido e contido demais, contrastando com meu jeito serelepe de ser. Mas era o seu jeito que me fazia ficar mais perto, e eu simplesmente o admirava. Nesse jogo de extremos, embora não falássemos muito sobre nossas vidas íntimas, sabíamos dos limites delineados pelos nossos antigos compromissos afetivos. Ainda assim, mesmo sem saber onde aquilo ia chegar, não abríamos mão de conversar sobre o universo, poetas e músicas, ou de rir de coisas que,nós mesmos, conseguíamos achar graça. Até aí, não havia nenhum sinal de perigo.
 
CAPÍTULO 2 – A ARTE DO ENCONTRO.

 
Era feriado, e já que eu não tinha maiores planos para aquela tarde, sai de casa decidida em fazer algo novo: encontrá-lo! Eu, com a minha mania de descobridora.dos.sete.mares, não me contive e fui à procura de Otávio. Ai, meu Deus. Essa mania já me arrastou para o fundo do poço e já me levou às más interpretações, mas o Otávio Maia... Bem... Ele não era como os outros. Ele parecia inofensivo. Com a minha curiosidade incontida, já tinha ido ao seu estabelecimento outras duas vezes, mas, como sempre via uma moça na livraria e outras duas garçonetes servindo os clientes, imaginei que ele gostasse de trabalhar em casa. Fora isso, na minha falta de tempo, sempre passava pela porta daquele charmoso e convidativo lugar, e nunca me permitia entrar. Estava sempre atrasada ou cansada demais para tomar café ou comprar um livro.
Entretanto, naquele dia quente de primavera, enquanto passava pela frente do Café Cultura, notei que tinha um rapaz de costas, arrumando cuidadosamente as prateleiras atrás do balcão. Na calçada, apenas para confirmar minha quase-certeza, perguntei a uma cliente que acabava de sair, se ela sabia quem era aquele jovem rapaz. Com um sorriso confiante, ela disse que o rapaz era o dono daquele lugar. Ali estava minha grande chance! Queria estudar melhor a sua expressão antes de entrar no local. Se parecesse feliz, quem sabe, entraria e o cumprimentaria, assim, como quem não quisesse nada. Mas, se ele aparentasse um mínimo semblante mal humorado, eu fugiria e fingiria que aquela ideia louca nunca tinha passado pela minha cabeça, e atravessaria a rua para tomar um sorvete.
Foquei meu olhar através da vitrine. Para disfarçar, fiquei admirando as propagandas promocionais presas no vidro da loja, até que, sigilosamente, olhei além das mesas e cadeiras para observar melhor seu rosto. Fiquei ali, como um detetive disfarçado, analisando suas ações. Ele virou, e notei sua feição atinada, e eu diria até, introspectiva. Quase voltei atrás, mas quando observei que ele também olhou fixamente pra mim, mudei de ideia. Era tarde demais. Fui pega no flagra o observando, e ia parecer muito estranho se eu, de repente, desse meia volta. Mesmo não tendo a certeza de que o Otávio me reconheceria, não queria que ele achasse que eu fosse uma fugitiva insana ou uma mulher infantil. Parei toda aquela minha cena investigatória e abri a porta com um ar de despreocupada. Aliás, fingi despreocupação. Tentando agir naturalmente, olhei rapidamente para o teto, e notei, não contendo meu espanto, que havia, perto do lustre, um mosaico maravilhosamente bem feito, formando uma frase de Vinícius de Moraes, que dizia: “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” Não tirei essa frase na minha cabeça, desde então.
Visivelmente surpreso, Otávio parou o que estava fazendo e acompanhou meus passos. Voltei meus olhos pra ele de novo, e acenei delicadamente; por um segundo, achei que ele não fosse retribuir. Mas, quando ele piscou com um olho só, meu pulso desacelerou, e enfim, eu me aproximei mais e mais, até conseguir tocar seu ombro. Com entusiasmo nos olhos e com uma sinceridade que, às vezes, me envergonha, eu disse: -“Oi, sou Cecília! Cecília Albuquerque. Não sei se você já me conhece, mas, por via das dúvidas eu vim aqui me apresentar a você. Não estava fazendo nada, saí de casa para dar uma volta, e aí, passando por aqui, reparei que talvez, pudesse ser você arrumando as prateleiras (...) Bem, não vou incomodar. Até outra hora”.
Maldita espontaneidade que me faz falar pelos cotovelos.
A funcionária que estava ao seu lado, me olhou constrangida e se retirou de fininho, percebendo que se tratava de uma estranha louca que resolveu entrar, só pra ficar falando descontroladamente, após ter espionado por vários minutos através do vidro. Apesar de ter ficado inicialmente receoso, Otávio, cumprindo a profecia da frase estampada no teto, cedeu àquele nosso encontro inusitado e enfim, transpareceu contentamento ao conhecer, finalmente, a dona da enigmática voz que tanto ouviu nos últimos meses. Oi-oi. Muito prazer conhecer você, enfim.” – Otávio gaguejou um pouco, como quem estivesse sido pego de surpresa em uma entrevista, ao vivo, para a televisão. Certa que meu papel de me apresentar oficialmente foi cumprido com o êxito esperado, não demorei nem mais um minuto e me despedi, um tanto acanhada. Não queria, de modo algum, atrapalhar a continuidade dos seus afazeres. Caminhando até a porta, vi pelo reflexo do espelho, ele sacudir a cabeça, ainda meio aturdido. Acho que também reparei em seu sorriso de canto de boca, o que me deu um alívio gostoso por dentro.
CAPÍTULO 3 – SUMIÇO. 
 
Quase um mês depois da minha aparição surpresa, eu percebi que nunca mais tinha recebido suas solicitações cordiais por e-mail, nem sequer, ligações risonhas para pedir orçamentos. Fiquei com medo de ter espantado a preferência de meu assíduo cliente, perdido a credibilidade de um grande admirador literário, e o mais grave: ter estragado a possibilidade de uma amizade porvindoura. As piores coisas passaram pela minha cabeça. Resolvi assim, mandar um e-mail para ele, desta vez, fora da perspectiva profissional. Demorei mais de uma hora redigindo um texto de três linhas. Me desculpei, rapidamente pela minha possível ingerência, falta de jeito ou espontaneidade exacerbada. Expliquei, por fim, um pouco sobre a minha vontade de conhecê-lo, no “bom sentido”, e rezei, ao enviar, para que ele estivesse pensando coisas boas sobre mim também. Após alguns dias, ele ainda não havia me respondido; mas eu sou assim: geralmente, quando as coisas não estão tão claras, insisto duas vezes para me certificar de que tudo não passa de um mal entendido. Na semana seguinte, olhei na lista telefônica o número do seu estabelecimento comercial. Liguei, um pouco sem saber o que falaria, caso me atendesse.
Após três longos toques, uma voz feminina atendeu e disse, seca, que o Otávio não estava. Depois de sondar um pouco, fiquei sabendo que ele estivesse fora da cidade. A moça de voz aguda não quis passar seu número de telefone pessoal, não quis dizer quando estaria de volta, não quis nem atender a ligação naquele momento, eu senti. Mas, milagrosamente, como se estivesse arrependida da tamanha frieza com que me tratou, disse que passaria meu recado, assim que possível. Quase fui tomada pelo meu orgulho e pensei em dizer que não precisava, mas deixei meus contatos. Teria sido sua esposa ao atender a ligação? Após pensar que, talvez, eu estava sendo inconveniente, com um nó de arrependimento, desliguei.
Mais uma semana se passou, sem que eu tivesse notícias do seu paradeiro; Eu escondia a minha inquietação, tentando concentrar meus pensamentos, apenas no trabalho. Senti um frio por dentro: Otávio Maia não se importava tanto assim comigo. Pelo menos, era o que eu achava, com o meu jeito melodramático de ser. Com essa ausência repentina, restou em mim uma saudade boba, e eu realmente achei que ele ainda tinha muito para conhecer sobre mim. Nossas conversas pelo telefone faziam muita falta” - murmurei pra mim mesma, quando vi um vulto debaixo da porta e dei um pulo, pensando: “finalmente, ele voltou e veio falar comigo!”. Ao girar a maçaneta prateada, não pude disfarçar meu desapontamento ao ver a figura do carteiro e seu bigode grisalho. Peguei três envelopes de sua mão anciã: conta de água, conta de luz e uma carta. O quê, uma carta? Não sei se me espantei mais ao ver seu nome debaixo da palavra “remetente” ou se fiquei aturdida ao receber uma carta de uma pessoa especial, em pleno século XXI. Quantas cartas eu já recebi na vida? Duas? Carta é coisa rara. Lembrei, de imediato, de um trecho de um conto, que tanto me agrada:
Dentre as coisas mais lindas que o homem já inventou, foi a carta. A carta, quando escrita com sentimento, é como o abraço: acalenta e não deixa espaços. A carta quando feita com carinho é como a saudade: faz lembrar e ser lembrado em sua integridade. Uma carta que vem de dentro, é forte como um vento, é fotografia intangível que seduz e traduz um sentimento reservado. Carta é coragem, verossímil prova de zelo e perspicácia. O dono da carta carrega, por conseguinte, estes finos predicados (...) Que sejam sempre bem-vindas suas doces palavras!.”
CAPÍTULO 4CARTAS PARA O OTÁVIO. 

 
Contive minha curiosidade e guardei o envelope na bolsa. Assim que cheguei em casa e pude me certificar de que eu estava sozinha, abri aquele envelope azul e de tamanho mediano, quase intimidador, podendo avistar que dentro dele havia um papel branco, milimetricamente dobrado ao meio. Peguei-o com certa aflição, desdobrei-o, e passei os olhos, rapidamente, em um texto impresso. Notei que o Otávio me enviou uma carta digitada pelo computador, e automaticamente, revirei os olhos, ao mesmo tempo em que ri, sem acreditar por ele ter se dado esse trabalho. Quanta audácia! Antes mesmo de pensar em brigar mentalmente com ele por não ter escrito aquela coisa maravilhosa com sua própria letra ou, sei lá, tê-la mandado por e-mail para que chegasse, ao menos, mais rápido, li um trecho em que ele se justificou:
Querida Cecília,
Decidi te escrever porque, malgrado tivesse mais coisas para falar, não falei pessoalmente. Talvez, por minha (notória) timidez ou pela brevidade dos nossos encontros. Aqui, não há timidez, nem pressa. Só eu e o teclado. Também não preciso me preocupar com as conclusões negativas sobre a minha pessoa, que a minha letra poderia fazer você tirar. E porque resolvi te mandar uma carta? Bem, uma escritora como você, merece algo diferenciado, à altura da sua destreza.
Achei de muito bom gosto ele ter mencionado, propositalmente, essa questão da “análise da caligrafia”, sinal de que prestou bastante atenção no que escrevi no meu único livro. Na verdade, nem sei interpretar direito as linhas de uma letra, tal qual um profissional faria muito bem, mas o Otávio insistiu em permanecer com essa ideia genial e inovadora de me mandar cartas (mesmo que digitadas pelo computador), me fazendo reacender esse meio de comunicação milenar. As novidades das experiências me atraem e, por isso, aceitei o desafio de me comunicar apenas dessa maneira, uma vez por semana, até que ele retornasse da sua longa viagem. Não posso mentir. Foi uma experiência maravilhosa, que durou quatro ou cinco semanas (...) até que eu senti que estava fazendo algo errado.
Mesmo o Otávio dizendo pra mim, em letras garrafais, que a minha espontaneidade j-a-m-a-i-s foi por ele mal interpretada, eu acendi o alerta e brequei. Faltavam três semanas para a viagem dele acabar, e eu resolvi, sem maiores explicações, parar de responder às cartas enviadas por ele. Senti que a nossa frequência afetiva, não mais, estava sintonizada, não do jeito que eu gostaria, e isso me deixou com medo: com medo, principalmente, de magoar o Otávio. Por sinal, nós dois tínhamos uma família, e a pessoa que me esperava todos os dias em casa para jantar, começou a demonstrar sinais de ciúmes, por medo de estar me perdendo para alguém habilidoso demais em roubar, de forma exclusiva, minha atenção. De todo modo, sabia que o risco era iminente e inegável: antes de dormir, eu passava, horas e horas, fazendo cartas para o Otávio.
Em uma conversa com meu íntimo, reparei que precisava refletir o rumo da nossa peculiar “relação”, que começou com e-mails formais, se desenrolando para calorosos “bom dias”, até chegar às conversas telefônicas infindáveis e, posteriormente, à necessidade viciante de receber aquelas cartas com envelope azul. Minha necessidade de ficar sozinha se tornou mais imperiosa, quando, numa noite, tive um pesadelo com alguns desenganos do meu passado. Acordei lembrando que havia sofrido por situações semelhantes e que até mesmo, já fui acusada por ter iludido propositalmente, sendo considerada uma vilã má, usurpadora de sentimentos. Em casos extremos, já cheguei a romper relações de forma severa, deixando mágoas que até hoje não cicatrizaram. Mesmo a vida sendo assim, com suas dores e dissabores, eu receei, que entre eu e o Otávio ocorresse algo tão doloroso a esse ponto. E haveria grandes chances para isso: eu me aproximei dele e o aproximei de mim, e agora, por motivos que eram meus, me afastei abruptamente.
Ah, o tal “Efeito Girassol”!
 
CAPÍTULO 5 – O EFEITO GIRASSOL
 
Certa noite, me flagrei lendo o trecho final da última carta que enviei para o Otávio:
(...) A flor de girassol significa felicidade, e acho que isso tem muito a ver comigo. A cor amarelada de suas pétalas simboliza calor, lealdade e entusiasmo, refletindo a energia positiva do sol. Mas, nem sempre os meus dias são ensolarados. (In)felizmente, também gosto dos dias de chuva. E assim como o girassol, sem sol, não tem a mesma vitalidade, eu me recolho nos meus pensamentos, sempre que a luz não está ao meu favor. Quando isso acontece, aprecio me deleitar nas águas da chuva de um lindo dia nublado, e este é meu jeito de ser. Ora, sou a Cecília entusiasta, espontânea e presente. Ora, sou a Cecília pensativa, solitária e ainda assim, feliz. Se meu pai bem soubesse, não teria colocado meu nome de Cecília (do romano, sábia) e sim, me chamaria de Clície, ninfa cegamente apaixonada pelo deus do Sol, e que deu origem, segundo a Mitologia Grega, à primeira flor da mencionada espécie. Mas não sou ninfa, e ninguém aqui é deus. Espero que me aceite assim, esse ser humano feito de amor e verdade.
Beijos,
Lila.
 
*
Otávio voltou de viagem e nada me falou. Eu só fiquei sabendo de seu retorno, quando, dias depois, recebi um de seus e-mails formais solicitando um novo serviço à agência de publicidade. Naquela mesma tarde em que eu respondi seu e-mail, ele resolveu me ligar para tirar algumas dúvidas sobre os valores por mim enviados. Sua voz parecia serena, e apesar da formalidade das palavras bem colocadas por ele, havia algo nuvioso pairando no ar. Até então, eu não sabia o quanto a minha ausência repentina tinha tocado o seu coração. Antes de desligar, porém, senti sua hesitação quando, ele voltou atrás e perguntou o que eu iria fazer naquela noite. Otávio gostaria que eu fosse no Café Cultura, após o expediente. Eu não poderia demorar, mas ele merecia alguma explicação da minha parte. E assim o fiz, fui novamente ao seu encontro.
No caminho do Café Cultura, passou pela minha cabeça que o Otávio iria, simplesmente, me entregar um souvenir da sua viagem, aquele que tanto me prometeu pelas cartas. Me surpreendi ao chegar e encontrá-lo, sentado sob a luz da semi-penumbra, meditando sozinho em uma das mesas da cafeteria. Não havia nenhum souvenir em suas mãos. Sente-se”, ele disse com um sorriso apreensivo, e completou, sem mais delongas: “depois de alguns dias sem falar com você, confesso que senti sua falta. Aliás, ainda sinto. Ao ver o meu olhar estático, buscando as palavras para responder àquela confissão inesperada, o Otávio continuou: “Chamei pra te dizer que me importo, que faz diferença pra mim. Percebi os sinais de que deveria me afastar, mas precisava entender o porquê do girassol, que outrora esteve tão aberto, ter se fechado totalmente. Foi tudo novo, Cecília. Desconhecia o tal efeito girassol e não estava preparado para conhecê-lo. Então, me faça entender, porque a teoria do girassol, per si, não se explicou.
Queria ter tido mais tempo para fazê-lo entender as minhas próprias teorias. Queria ter um jeito de conseguir explicar algo intocável. Mas, como naquela noite eu só tinha pouco mais de cinco minutos para conversar, tentei, injustamente, resumir aquilo tudo que senti nas últimas semanas. Expliquei, com o máximo de detalhes possíveis, o grande motivo por detrás do meu desaparecimento proposital. Falei como eu me sentia, revelei minha preocupação com relação a nós dois. Não era culpa de ninguém, arrazoei, mesmo sabendo que, se não fosse por mim, nada daquilo teria se iniciado. Enquanto eu falava, Otávio meneava a cabeça como se estivesse absorvendo perfeitamente minhas justificativas. Com tamanho cavalheirismo, ele disse que era fácil demais colocar-se em meu lugar. As palavras certas fugiram da minha boca. Minha espontaneidade foi embora junto com as palavras.
Um carro do lado de fora, abaixou os faróis e buzinou. Entendendo que chegava a hora de partir, me levantei da cadeira, e um ar melancólico se instalou naquela cafeteria. Olhei para ele. Dez segundos de silêncio, uma eternidade. Ponderei que, para o nosso bem, era melhor voltarmos à estaca zero, e encerrar aquele contato contínuo, de uma vez por todas. Otávio, com sua forma característica de me encarar, se despediu de mim, estando certo de que eu já tinha decretado, de forma irrevogável, o fim daquele privilégio. Não era essa a impressão que eu queria ter passado, mas, enfim... Assim ficou registrada em seu subconsciente, a minha rude decisão final. Dei-lhe um abraço afetuoso e fui caminhando em direção à porta. Pelo mesmo espelho em que vi o sorriso de Otávio alguns meses atrás, nesta noite, reparei que ele, desapontado, nem conseguia mover os músculos dos lábios.
Entrei no carro. Começou a chover torrencialmente e eu, pelo vidro fechado, me distrai ao observar os pingos de chuva que molhavam o caminho até minha casa. Chovia dentro de mim também, e o girassol apreciou, calado, esta chuva de solidão. Devo confessar que, inevitavelmente, senti uma pontada de tristeza, não com o Otávio, ou com qualquer atitude que ele tenha julgado decepcionante. Mas restou um pouco de consternação comigo mesma, por ter ouvido de sua voz suave, algumas árduas palavras como: “adeus” e “irrevogável”. Senti que passei a impressão de ter cortado, ao extremo, o laço afetuoso que existia entre nós, e eu sabia que isso não era verdade. Aliás, o laço sempre existiria entre eu e ele, todos os dias. Só que se demonstraria de forma diferente. E assim, a frase de Vinicius de Moraes que um dia, de certa forma, nos aproximou, mostrou-se, mais uma vez, ser a mais fiel descrição do que é a vida.


 
CAPÍTULO 6A ÚLTIMA CARTA.

 
Chegava a hora de seguir meus sonhos. Recebi uma proposta inescusável e iria mudar de cidade. Era minha última semana de trabalho naquela agência de publicidade que me acolheu tempos atrás; para me despedir, decidi enviar ao Otávio, uma última carta: 
 
Querido Otávio,
Acho que todas as pessoas, lá no fundo, têm um girassol plantado. A diferença é que muitos sabem e lidam com a sua existência de forma tranquila; outros, no entanto, desconhecem ou ignoram seus efeitos. O girassol, nada mais é, que uma metáfora para representar a nossa frequência afetiva. Já é a segunda vez que uso essa terminologia, mas o que isto, exatamente, significa? Imagino que essa frequência está intimamente ligada ao nível de presença que exercemos na vida das pessoas importantes para nós, e também, na forma como evidenciamos isso. Essa frequência também envolve o jeito de lidarmos com demonstrações de afeto. Existem aqueles que ficam longe, mas ao primeiro chamado, estão prontos para ajudar. Existem aqueles que estão presentes o tempo todo, mas nem sempre podemos contar. Há quem “não goste” de receber carinho ou de demonstrar seus próprios sentimentos. Há quem demonstre seu amor, apenas se receber algo em troca. E há também, quem ande por aí com o coração vulneravelmente aberto, distribuindo intensamente seus sentimentos, mas precise, de repente, de um tempo pra si, para se recolher, para se conhecer melhor. Assim, para cuidar bem dessa flor peculiar, se faz necessário se autoconhecer e colocar em prática a arte da empatia, tentando entender e tolerar o outro da maneira como ele é. Conviver, diariamente, com esse difícil jogo das relações sociais é complicado. É claro que existem situações excepcionais, mas, algum dia na vida, fazemos alguém se apaixonar pela gente e não ficamos, igualmente apaixonados. Ou amamos intensamente, e não somos, do mesmo modo, correspondidos. Podemos, por fim, querer bem alguém, mas nem sempre, existir verdadeira reciprocidade. Sorte de nós, se bem soubéssemos o que Vinicius de Moraes quis dizer com esses desencontros.
ps.: Espero que volte a gostar de girassóis. Eles também moram dentro de você.
Sua amiga, para sempre,
Cecília Albuquerque.