Se havia algo mais doloroso que o abandono, ela não sabia dizer naquele momento. Era um fogo tão intenso, que queimava sua garganta e atingia com toda força o seu coração, já quebrado em tantos pedaços. Ela sabia que ainda existia possibilidade de volta, pois ele não perderia a chance de arrancar dela as últimas gotas do amor sincero que sempre recebeu sem dar muito em troca. Contudo, se ela voltasse atrás, estaria provando pra si mesma que carecia do melhor amor, o amor próprio, dando lugar assim, às novas e futuras desilusões que certamente surgiriam com o tempo. Não queria cometer duas vezes o mesmo erro, assim como fez da última vez em que permitiu que ele, arrependido, reatasse o laço nunca desfeito.
Enfim, ele não era o homem da sua vida. Bem que o velho moço lhe havia diagnosticado a gravidade da moléstia que existia, dias antes de tudo ter fim. Porém o que ela não sabia era que iria acontecer tudo tão depressa, que a morte e o desapego viriam repentinamente, e lhe roubariam silenciosas todas as suas esperanças no auge da sua grande paixão. Lembrou dos últimos telefonemas em que as vozes soavam macias de ambos os lados e não acreditou que poucos dias antes, ele disse que sentia a sua falta. Mas a mais incoerente das suas lembranças foi a da hora em que ele, num momento de grande raridade, havia lhe declarado de uma maneira surpreendente, o seu suposto amor. É uma pena, pois ele só a fez ficar mais apaixonada. O que havia crescido no seu coração nos poucos meses que se sucederam, era dolorosamente inesquecível e ela sabia que apenas outro grande amor seria capaz de curar esse vazio. Mas até quando ela teria que suportar esse suplício? No seu semblante sorria a mágoa de um adeus inexplicável e às vezes era impossível esconder a vontade louca de chorar. Foi um adeus diferente de todos que já havia provado. Era diferente, afinal, ele não era apenas mais um amor platônico de pequenos casos que já viveu. Pode ser que ele realmente não seja o homem da sua vida, mas de fato, ele foi o seu primeiro "homem". Ele sabia que esse valor para a mulher é de grande importância e talvez por isso brincasse tanto com sua doce inocência. Queria poder ter uma droga, uma festa, uma esquina, capaz de apagar da sua memória essa pessoa que um dia aprendeu tanto a amar. E ainda amava tanto. Mas agora que tudo virou um sentimento triste e impuro, mistura de raiva e saudade que descia seca em cada lágrima, era preciso, de maneira cruel, aprender a arte do desaprender. Um dos motivos para agir assim, era lembrar que não vale a pena estar com uma pessoa incapaz de ser fiel a um sentimento tão nobre, pois de fato, conseguiu provar duas vezes com tamanha facilidade e de uma maneira tão insana e egoísta, a preferência pelo seu próprio prazer. Mesmo assim, ela se dividia em duas. Metade do seu coração era grito e fúria, imaginação e obsessão que não a libertava do inferno em que estava inserida e que só a fazia sentir-se cada vez menor e mal-amada. Por outro lado, preferia a metade que sofria calada, que sabia da culpa, mas tentava desculpá-lo com todas as forças, pois ainda o enxergava como um ser humano submetido à erros e acertos. Preferia essa metade que não media esforços para lembrar dos bons momentos e que carregava tudo como uma grande lição, benéfica e madura para sua vida. Essa preferência não significava que iria aceita-lo de volta, mesmo existindo a tentação de tê-lo em seus braços novamente, nem que fosse uma última vez. Apenas preferia mil vezes essa metade do coração, pois era a parte boa e pura que ainda lhe restava, e que sobrevivia digna, mesmo depois de tanto mal que presenciou. Se pudesse cortar o seu coração ao meio e jogar fora a primeira metade, assim o faria, pois sempre soube que para colher coisas boas no futuro, é preciso Livrar-se de todo mal, amém.