Olhava e reolhava, já cansada, aquela mesma tela do computador. Na sua frente, apenas velhas fotos; Fotos de antigos amores, de paixões mal resolvidas que nunca tivera coragem de jogar fora. Apesar das terríveis desilusões, preferia guardar aquelas imagens perturbadoras no fundo de uma pasta esquecida, para quem sabe, em um dia qualquer, olhá-las de um novo ângulo e poder sentir saudades. Que tédio, que saco, que chata essa hora que não passa! - Pensava impaciente a garota, em um silêncio gritante. Queria experimentar algo diferente. Ela sentia que seu interior começava a ficar oco e esse negócio de nostalgia já estava dando nos nervos. Queria sentir seu coração vivo e bombeando chamas, mas seu sangue já havia se tornado preguiçoso de tanto trabalhar em vão, para alimentar um coração burro que só escolhe amar as pessoas erradas. Aquela noite de sexta-feira passava se arrastando pelos corredores, e o feriado junino estava só no começo. Sem ter muitas opções, resolveu fazer algo que há muito tempo havia se desligado. Impulsivamente entrou num desses chats de beira de estrada, desses que Deus e o mundo ainda insiste em usar, mesmo sabendo que existem tantos outros melhores métodos de conversas online. E daí que não fosse o local mais badalado do momento? De repente, até quem sabe, encontraria ali sua cara metade como muita gente sortuda que se tem noticia! Escolheu a dedo a sala que ia ficar, porém pensou criteriosamente no seu apelido. Parecia bobo, mas era a tradução de tudo o que sentia naquela noite. Ao entrar, notou que as conversas continuavam tediosamente as mesmas, a pedofilia ainda se fazia presente e o clima de azaração aquecia de maneira superficial aquela sala de bate papo. Em menos de um minuto, surgiu um pretendente. O Sozinho no Apê, tão carente e solitário, mostrou-se interessado em conhecer a Boneca com Manual, que até o momento também estava completamente sozinha. Sem muita demora, ela respondeu, de certo modo, friamente os cumprimentos calorosos do rapaz, mas isso não impossibilitou que a conversa se prolongasse nas horas seguintes. Aos poucos a má impressão foi se esvaindo, e ela foi admitindo que ele era um pouco interessante. Num certo momento, até que se animou ao ver uma foto dele. Ela estava num tamanho bem reduzido, mas a garota fazia questão de apertar os olhos para tentar enxergar os mínimos detalhes possíveis. Ele aparentava ser bem bonitinho, e o papo bom ajudou ainda mais na aproximação dos dois. No dia seguinte, já estavam tão íntimos quanto a borboleta e seu casulo. Parecia que já havia algum elo entre eles, ou esse elo, por algum motivo não encontrou dificuldades em se firmar. Prova disso foi a saudade que começava a nascer, toda vez que eles se despediam ao fim das conversas. Mas era uma saudade insignificante, comparada às ultimas vezes que sentiu isso por alguém. De inicio, ele usava e abusava de elogios baratos, mas não fazia economia das belas palavras na hora da conquista. Soltava a sua lábia de Don Juan conquistador, chegando quase a jurar amor eterno. Mas não era isso que ela mais buscava nele. A garota olhava todo aquele sentimentalismo exacerbado com repugnância e até chegava a rir dele num tom subversivo e irônico. Depois de tudo que havia passado, não seria tão tola de cair feito um patinha boba nessas conversas moles de certos espertinhos. É claro que às vezes, ser paparicada é a melhor coisa do mundo. Mas tudo que ouvia não era suficiente para deixá-la enfeitiçada.

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