Registrar os
fatos com palavras é a maneira que elejo para conhecer a mim mesma, pois escrever
eleva a alma ao mais profundo autoconhecimento. Para entender o que eu digo,
basta pensar com carinho, pois, da mesma forma, as minhas palavras exprimem
carinhosamente o que a razão, com a sua astuta frigidez, não conseguirá jamais
explicar.
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“Teus
olhos abrem pra mim, todos os encantos/ Teus olhos abrem pra mim. Teus olhos
abrem pra mim, todos os encantos bons. Tudo que se quer vai lá. Eu vi na terra,
você chegando assim. Assim, de um jeito tão sereno. Ai, ai, meu Deus do céu! Eu
vivo sem pensar se sou só. Acho que não vou mais. Agora tudo tanto faz, meu
bem. Eu vi você passar levando meu encanto (...)” [Teus Olhos ]
Malmente
via você, e se te via não me comprometia em olhá-lo mais profundamente, como
faço com os meus mais íntimos conhecidos. Na verdade nunca reparei em muitos
detalhes seus, talvez pela falta de oportunidade, quem sabe por falta de
vontade em descobrir quem era você. Um dia você veio até mim, me encarou com
olhos de bom moço e me viu cumprir, sem falsa modéstia, os ofícios
profissionais com o mais dedicado cuidado, zelo, e afeição. Posso até
esquecer-me de alguns ínfimos detalhes, mas nada, nada me fará esquecer o brilho dos seus olhos naquele dia. Só em
falar neles já não lembro se era manhã ou tarde, ou nem mesmo o que falei ou
deixei de falar ao te ver naquele momento. O seu olhar tinha uma doçura tão
inebriante e cada vez que os meus olhos acanhados encontravam os seus, sentia
uma luz de diamantes a pairar sobre nossas faces. Devo confessar que a minha
face corou veemente, quando reparei na dimensão, redundantemente tão profunda,
daquele seu olhar. Mas disfarcei, ah, claro, disfarçar foi o melhor que pude
fazer naquele dia em que te vi oficialmente. Falo que foi uma visão “oficial”
já que foi a primeira vez, de verdade, que passei a conhecer seu nome, seu
rosto e sua forma de olhar pra mim. Antes de você sair, não pude deixar de
reparar em algo dourado e vistoso em sua mão direita. Uma linda
aliança. Aliás, não só eu reparei, mas todas que estavam ao meu redor repararam
no fato de você ser comprometido com alguém. Por um minuto imaginei como seria a
pessoa escolhida por você, e logo idealizei uma família começando a ser
formada. Senti-me feliz, por pensar que você era feliz. Depois desse lapso de
felicidade, confesso que não liguei mais pra fato algum, e que apesar de seu
olhar (como dito acima), ter sido o grande foco de minha atenção, tentei
mostrar-me indiferente à sua presença e a tudo que havia vivenciado ali. Quero
dizer com isso que não almejava mais te ver, ou muito menos falar com você
outra vez. Assim que você saiu do recinto onde eu me encontrava, os comentários
explodiram feito uma bomba atômica. Mas foi uma explosão de elogios e
observações relevantes e de muito bom gosto.
Os comentários descreviam sobre o seu ar sedutor, seu jeito donairoso,
seu porte varonil, seu conjunto estrutural completo (...). E eu? Concordei com
absolutamente tudo, balançava a cabeça em sinal positivo, dava sorrisinhos
refreados, guardando, entretanto, as considerações mais salientes apenas pra
mim. Não quis confessar o quanto o jeito de você me olhar me atraiu, por
exemplo. Isso deveria ser um segredo a
morrer comigo. Pensava comigo mesma que se eu te visse de novo, seria para tratar
de algo voltado exclusivamente para o âmbito profissional, e que os assuntos
não triscariam os nossos gostos, sonhos e opiniões. Aliás, não imaginei a
continuidade paralela dos nossos destinos. Doce engano.
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