Eu só quero saber onde se escondeu aquela mocinha, que fugia resistentemente dos seus mais profundos desejos humanos. Desconheço de onde nasceu essa nova mulher que já não se esconde e que já não resiste às suas loucas vontades. Bastou um beijo, um único beijo para mudar-lhe o rumo, a razão e os pensamentos. Agora, tudo é confusão e, no mais, que mais palavra pode-se dizer? Paixão?
Pois bem, o foco dessa nova história é um alguém surpreendente. Darei a ele o nome de “Gê”, para que em duas letras fique representada a imensidão desse meu incrível personagem.
Passava por mais uma fase conturbada em sua vida emocional. Encontrava em Gê um cobertor aconchegante para os meus espinhosos desafetos. Era um momento simples, que tantas vezes já enfrentara, por isso, não considerava aqueles desafetos tão ameaçadores para minha vida. Tempos atrás não lhe desejava mais do que um ombro amigo. Atraía-me pelo seu porte sim, mas o adorava muito mais pela sua inteligência sagaz incutida em tamanho resguardo. Fora isso, apenas bons companheiros. Um dia lá percebi o olhar oposto que cruzava o raio de minha presença. Ele estava diferente. Dessa vez tudo parecia vibrante, fixo. Notei que Gê me encarava como quem quisesse dizer e fazer algo num simples ato de olhar. Pouco a pouco, as conversas começaram a soar como notas musicais e a presença dele foi tornando-se cada vez mais e mais necessária. Um dia, ao se despedir me deu um beijo na testa, e com esse suave beijo, veio toda uma explicação teórica acerca do seu significado. Ele me fez sentir importante. Depois, uma onda intermitente de mensagens subliminares invadiu a minha semana. Nada de mais. Apenas me ligava para dar “bom dia”, saber detalhes das coisas corriqueiras, fazer mimosas menções aos acontecimentos diários. Teve também, aquela noite das primeiras revelações em que, cada um, num jogo de perguntas e respostas, ousou descrever as qualidades, mutuamente. Foi depois daí, que ele arriscou dar o seu primeiro palpite para o futuro de ambos, e falou com a voz firme, olhando-me profundamente nos olhos: "Você está vendo nós dois? Onde nós iremos chegar eu já sei, e com o tempo você vai descobrir também."
Naquele momento, as coisas que ele falava sobre “nós” não faziam nenhum sentido para mim. Queria saber de onde ele tirava tanta certeza para conhecer o final de nossos destinos. A crise emocional chegou num rumo grotesco quando ele me provocou num encontro. Ao chegar, notou que eu estava sozinha no meio daquela multidão e elogiou meu vestido de forma sorridente, dizendo o quanto eu estava encantadora. Sem nenhum medo, me perguntou aos ouvidos: “o que você sente agora? O que você sente ao me ver?” Eu engoli a seco aquela pergunta, não a esperava de forma tão direta. Inegável eram as sensações daquele momento: minha mão estava milimetricamente trêmula, quase que imperceptível, meus músculos estavam tensos, mas de certo, eu não deixava a tensão tomar conta do meu autocontrole. E aí, ele me falou suave, ainda ao pé do ouvido, implicitamente ansiando uma resposta positiva: Vem comigo, quero saber o que eu sinto quando estamos sozinhos.” e ainda completou: “você está nervosa? Porque eu estou.” Eu calei, consenti balançando a cabeça em sinal positivo, e o segui em silêncio. No meu rosto, uma mistura de dúvida e certeza do que estava prestes a acontecer. É claro que eu estava nervosa também, mas estufei o peito e falei em tom seguro que não estava. Realmente não tinha noção do perigo que estava prestes a correr. Eu me sentia segura ao lado dele, eu não tinha medo de sofrer.

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