De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto". (Rui Barbosa)
Certas horas, não fazemos ideia do que falta acontecer com a gente,
principalmente, logo após ter sofrido, quem sabe, uma dolorosa decepção. Às
vezes, blasfemamos quando algo dá “errado”, simplesmente achando que o mundo se
virou de cabeça pra baixo. Mas ora, quando estamos de olhos vendados não
enxergamos a clara mensagem do nosso destino. Para que ocorram grandes
mudanças, é necessário sacudir o mundo ao contrário, mudar os rumos, remar na
contramão. Fazer a nossa parte não se resume em aceitar a mudança - mover
esforços também faz parte. Numa história de tirania, pessoas boas também podem
ser coadjuvantes. A vida, quando tem caminhos para dar certo, traça planos
avessos e inimagináveis, muitas vezes, fidedignos de roteiros cinematográficos.
No final, tudo dá certo, e o que era avesso, torna-se o lado correto da vida. O
filme de como chegamos a certos lugares pode ser rebobinado sempre que nos
sentirmos tristes, e realmente, supera a mera ficção, porque, orgulhosamente,
aconteceu de verdade; é real, e melhor, é a SUA história.
*
Segundo semestre do ano X1. Tudo começou quando eu estava no lugar certo, na hora certa. A primeira
vez que a sorte bateu em minha porta, eu a cumprimentei sorridente, ofereci uma
xícara de café, e a mandei entrar. Ao se apresentar, ela me disse com um jeito
assente: “jovem, muito prazer, meu verdadeiro nome é Estabilidade. Você é
privilegiada em se deparar comigo tão cedo, mas não fique pensando que a sua
vida está ganha. Os desafios que virão podem ser arrebatadores e você pode se
perguntar, afinal, de que valeu esse encontro de hoje. Entenda e não se
esqueça, eu não sou suficiente pra ninguém”.
Eu estava estonteada, e mesmo sem processar por completo tais dizeres,
fiquei radiante em vê-la, afinal ela era uma visita única e especial e há algum
tempo eu vinha me preparando para a chegada deste incrível momento. Não sou tão
velha assim, mas o tempo me ensinou que não podemos desperdiçar um valioso
encontro. Sabe, a sorte vem e logo vai embora, mas quando fazemos por merecer,
ela nos apresenta muitas das suas boas amigas: as famosas oportunidades. Por
fim, após uma longa conversa no sofá da sala, fui levada para um lugar novo, e
ao se despedir, a sorte completou com um sorriso jocoso: "tenha uma boa
sorte!"
Confesso que a minha ilustre e súbita "visitante" tinha razão,
pois desde o início, nada foi tão fácil pra mim. Naquele lugar novo, cheio de
regras e ordens novas a seguir, a sensação anestésica do meu encanto foi
passando dia após dia, graças ao modo bipolar e sarcástico de uma única pessoa.
Aquela velha história de “poderoso chefão”, como todos aqueles clichês e
rumores ruins, foi finalmente confirmada [e vivenciada] por mim. Além de tudo,
ela era dissimulada. Aos olhos da sociedade, transmitia ser alguém fácil de
conviver, mas bastavam apenas alguns minutos sob sua companhia para descobrir a
sua verdadeira identidade. Estava cada vez mais árduo suportar tantos caprichos
e incivilidades, e eu, relativamente inexperiente, tive que aprender de forma
dura a abstrair tais fatos e dar o meu melhor. No entanto, o meu melhor nunca
era suficiente e a tal abstração, sempre mostrava-se difícil de pôr em prática.
Os meses se passaram, e eu me sentia totalmente presa a bilhares de imposições
desnecessárias e abusivas, e o efeito sufocante do medo vinha à tona cada vez
que me cortavam as asas e me impediam de mostrar o brilho que eu guardava
dentro de mim. Eu me enxergava desvalorizada e desmotivada; eu estava em uma
gaiola invisível. Em suma, passei por situações que me deixavam extremamente
constrangidas e roubavam de mim a vontade de acordar feliz no dia seguinte. Dentre
outras coisas, lembro-me como se fosse hoje: a minha constante decepção ao
elaborar um simples ofício, um mísero ofício de cinco linhas. As palavras
cuidadosamente por mim escolhidas eram maldosamente substituídas por sinônimos,
os parágrafos sempre modificados conforme mandasse o capricho do momento (...)
e assim, eu fui ensinada a acreditar que eu tinha grande parcela de culpa e que
era a minha exclusiva responsabilidade alçar voos mais altos. Restava-me apenas o
sentimento de inutilidade. Primeiro semestre do ano X2. Três meses de trabalho, significaram três séculos de angústia e ânsia por um timebreak. Nunca desejei tanto estar no conforto do lar. Ao retornar das férias, senti que um percentual do meu gás impulsionador estava recuperado, pelo menos, o suficiente para me dedicar aos acertos. A dedicação naquele período pós-férias foi à todo vapor. Admito que eu tinha medo de cometer um ínfimo deslize, como esquecer uma vírgula em um texto, por exemplo - erros assim, eram considerados inaceitáveis e próprios de alguém sem competência. Uma vírgula fora do lugar e a
O fim da picada aconteceu em uma sexta-feira, no final do mês de maio. No dia anterior eu havia faltado ao trabalho - obviamente com prévia autorização e por um motivo justificado; meu sentimento é que neste dia, logo no dia de minha ausência, foi batido o martelo sobre os novos rumos do meu destino. Quando cheguei, naquela sexta, eu não esperava o que estava por vir. Todos da sala, foram convocados para uma reunião extraórdinária.
{em construção}

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