Com o
passar dos dias as coisas foram mudando lentamente entre nós, acho que pra
melhor. O ritmo das conversas foi acelerando, e a ansiedade por cada resposta
foi se tornando ainda mais explícita.
Explicitar o que EU sentia era tudo que eu menos desejava. A rota dos
caminhos por onde quis passar foi sendo modificada até o momento em que me vi
extremamente vulnerável, graças as minhas palavras. Aos poucos, eu entreguei o
jogo e me entreguei ao nosso jogo. Entendi isso como um verdadeiro problema,
afinal, não me achei no direito de dizer as coisas que estava dizendo. Era, ao
mesmo tempo, algo doce e confuso, livre e proibido, grande e minúsculo se
comparada à dimensão do verdadeiro Amor Platônico. Não sabia o que era aquilo,
e de fato, ainda não sei. Senti coisas que não imaginava sentir, e pensei outras
tantas que não podia fazer, mas não mandamos nos nossos insanos pensamentos. Marcamos um reencontro. Achei graça de
mim mesma ao pensar que ansiava vê-lo novamente. Não havia explicação,
necessidade ou desculpa para te reencontrar, apenas vontade de vê-lo de perto e
saber o que realmente denotava aquela expectativa surreal. Você não sabe o
quanto briguei com os meus pensamentos. Chantageei-os, proibi-los de lembrá-lo
a cada música que ouvia, e de imaginar-me ao seu lado, transformando tudo em
uma batalha muito difícil contra os meus desejos. No final, após muitas tentativas
frustradas de te arrancar de mim, desisti e percebi que você estava impregnado
em toda parte, e já não adiantava mais me esconder. Foi espantosa a dor da
espera até aquela próxima semana. Quase
144 horas com um só assunto a predominar no meu monólogo íntimo; eu pensava:
“será que vê-lo de novo é certo?”, e logo me respondia “eu não está
fazendo nada de errado.” Essa consciência de que não estava cometendo um grave
erro, me fez seguir em frente um pouco mais tranqüila. O dia chegou.
Ratificando o meu interesse, fui atrás de você. Estava decidida a conhecer de
perto a sua verdadeira face. A espera se tornou ainda mais longa por causa de
sua demora, e até pensei em desistir de ver-te outra vez. Estranhamente me
senti sozinha, parva, e até quem sabe desiludida. A hora de ir embora já estava
tão próxima que dentro de mim ecoava uma indignação finita - ressalta-se que a
minha indignação era finita, pois eu impunha severos limites pra ela. Estava
chateada comigo mesma, e eu sei, não havia motivo para tanto. Não posso
contabilizar quantas vezes olhei para aquela porta, uma, duas, três, trinta
vezes se duvidar, para checar se o meu desengano desaparecia. Nada feito.
Voltei pra casa carregando debaixo do braço um sonho partido, e me espantei
muitas vezes com a amplitude da minha frustração. Briguei comigo de novo, e me
perguntei: “por que estou fazendo isso?”. Não aceitava permanecer em tal
estado. Naquela quinta, fui dormir pensando nos acontecimentos do dia e acordei
completamente renovada. Aquele sentimento desiludido se dissipou em uma noite
muito bem dormida. Pensei tanto em você no dia anterior, que cheguei a sonhar
com nós dois toda a madrugada seguinte, aliás, o que já era de se esperar. Até
o meu subconsciente se encarregava de agravar as coisas pro meu lado. Já era
impossível dominar as rédeas daquela situação. Como um cavalo teimoso, o meu
cérebro, mais do que nunca, mostrava-se auto-suficiente em suas decisões, e
esquecer-se de um “certo alguém” estava fora dos seus planos. Senti que ali, a
minha vulnerabilidade aproximava-se do limite. Descobri-me como, mulher e antes
de tudo, como ser humano.
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