"À noite sonhei contigo, e não
tava dormindo. Justo ao contrário, estava bem desperto. Sonhei que não fazia o
menor esforço, para que te entregasses. Em ti, já estava imerso. Que lindo que
é sonhar. Sonhar não custa nada. Sonhar e nada mais. De olhos bem abertos. Que
lindo que é sonhar. E não te custa nada mais que tempo. Sofrer com tanta
angústia por coisas tão pequenas. Gastar essa energia assim não vale à pena.
Quem dera me livrar, pra sempre de mim mesmo! E só me reencontrar lá no teu
doce abismo." [À noite sonhei contigo]
Alguns dias
depois, voltamos a conversar. Você explicou os motivos de não ter comparecido e
dentro de mim, não havia ficado ressentimentos. Sentia-me agora muito mais
íntima, passando inclusive a te tratar como um amigo especial. Quando você me
procurava, eu estava ali, predisposta a ouvi-lo, a te fazer sorrir, e a
absorver cada frase com a máxima acuidade. Contudo, tinha perdido a esperança
de marcamos um novo encontro, pelo menos não tão rápido, e preferi tocar a
situação sem pressa, para quem sabe, amenizar a minha angústia sentida da
última vez. No meio de tantos assuntos inacabáveis, você me apanhou desprevenida
dizendo: “amanhã estarei aí”. Por dentro, fiquei ludibriadamente risonha, mas,
nessa hora me contive e esperei ver você com os meus próprios olhos, para
depois, voltar a confiar inteiramente na sua palavra. Você prometeu ser
pontual, e esse foi outro tópico que certifiquei de observar com toda a cautela
possível. Na manhã seguinte, o meu telefone tocou bem cedo; era você do outro
lado, comunicando a sua chegada. Gostei de ouvi sua voz de novo, e consegui
sentir um tanto de confiança, mas permaneci, no entanto, inerte, até o momento
de ver as coisas se materializando em minha frente. Quando falou que queria saber
o local exato para o encontro, enfim, não pude crer. Eu estava apreensiva,
ansiando talvez descobrir o que passava pela sua cabeça. Finalmente iria ter um
breve e inocente instante ao seu lado, para desfrutar de uma dose de realidade.
E o que você esperava de mim? Não sabia. Eu não esperava nada de você, além de
um belo sorriso, um papo agradável e sua mais fina gentileza. Passei tantos dias sonhando sem sequer
fechar os olhos, que já desconhecia o sabor do palpável, do “ao vivo”, do olho
no olho. Lá estava você, jeans, camiseta e muito charme. Sorri. Quando te vi, o
meu estado de espírito se acalmou. Esqueci de tudo, inclusive das minhas
obrigações, o que não agradou nem um pouco o meu lado responsável. Vi-me cometendo um crime doloso, totalmente
intencional. Fugi de tudo. Você desregulou o meu relógio, e na verdade senti
uma vontade imensurável de quebrá-lo em mil pedaços e decretar um feriado
nacional naquele dia. Eu queria vivenciar as emoções vagarosamente, e poder
provar lentamente o sabor de cada palavra dita por você. Ao te olhar de perto, notei
o quilate de sua beleza. Contive-me mais uma vez, antes que minhas pupilas
fulgissem demais, irradiando de brilho todo aquele elevador. Mas eu queria
notar mais que isso, queria entender mais sobre a sua vida. A beleza é linda,
mas, superficial. Gosto daquilo que é profundo. Reparei em detalhes que me
poupei de comentar. A sua aliança? Onde estava? Tinha dúvidas do que isso
significava pra você, mas naquele dia, preferi continuar abstendo-me desse
pormenor. Não queria me decepcionar. Conversar pessoalmente com você foi algo
encantador. A nossa primeira conversa real, não foi tão duradoura, mas
tornou-se incrivelmente distinta de qualquer outra que tive há muito tempo. Eu
te falei e devo repetir: não me esquecerei desse dia. Ao seu lado me senti
completamente à vontade, e agi tão naturalmente como no sonho daquela noite
vazia. E claro, pude rever o seu olhar-camaleão mudar de cor ao se encontrar com
a cor dos meus olhos. Procurei memorizar cada detalhe, e uma leve brisa passou,
permitindo que eu sentisse o seu perfume. Até o aroma passageiro agradou o meu
olfato, e era um cheiro tão doce como o mel, me fazendo lembrar o meu poema
favorito. Mais uma vez, era chegada a infeliz hora de partir. Contudo, após a
despedida, selada com um beijo na face, notava-se o meu sublime contentamento. Retirei-me
sentindo ainda o contato da sua boca quente no meu rosto. Ali, eu já sabia o que esperar de
mim. Restava-me continuar sonhando.
.

Nenhum comentário:
Postar um comentário