CAP. IX - MOMENTO ECLÍPTICO:
INSUPORTÁVEL CLARÃO.
11 dias depois de você.
No dia seguinte, o arrependimento por eu ter te
dito tudo aquilo, só não foi tão desastroso, pois, ao menos, você correspondeu
e aceitou as minhas verdades, e com a mesma sinceridade, confessou, nem que
fosse um grama, da reciprocidade de tudo aquilo que eu senti. Apesar disso, sei
que me arrependeria muito mais depois, se nada te falasse. Na verdade, fiquei
um tanto atordoada, principalmente, quando soube que você leu o meu olhar esse
tempo todo. Você observou minhas atitudes, meu comportamento. E esse tempo todo
que eu achava estar "agindo naturalmente" você estava sentindo o fogo
consumir as minhas pupilas. Não duvido nada se você também sentiu a minha
apreensão e a minha tristeza nos momentos de despedida. De nada adiantou
estampar meu melhor sorriso no rosto, se você sentiu a tristeza que refletia
nos meus olhos quando eu te disse um breve adeus. E quando eu te falei que eu
não sabia o que fazer, você simplesmente foi você e pediu para que eu
continuasse sendo eu.
Aquela madrugada não foi fácil pra mim. Nada de
"bons sonhos". Me senti desamparada do outro lado da cama, e acordei
com a sensação de não ter dormido nada. Levantar foi quase impossível. A cabeça
doía, e tudo dentro de mim chacoalhava. Sozinha, na mesa da cozinha, chorei sem
saber exatamente por quem ou por quê. Talvez estivesse chorando pelo meu
próprio destino-futuro. Disfarcei minhas olheiras, pintei os olhos para
esconder a dor e o meu humor duvidoso e sombrio. Essa sexta-feira foi um tanto
tensa pra mim. Como terá sido seu dia? Pra mim, foi o Dia do Silêncio, que de
forma alguma significa ter paz interior. Tudo isso só me fez sentir mais
vontade de chegar ao final dessa história, cujos capítulos me inspiraram não
apenas a escrever poesias pueris, mas também, a escrever um livro sobre essa doce
insensatez impraticável.
Passei meus últimos momentos como um bicho
engaiolado. E eu sou assim. Quando as coisas não vão tão bem como eu gostaria,
fico calada no meu mundo, conversando comigo mesma na tentativa de me
auto-conhecer. E eu sei o quanto esse momento a sós com minha consciência é
importante. É nessa hora, que meu íntimo me ajuda a distinguir o que, de fato,
eu guardo dentro da minha caixa de pandora. Sendo assim, após meditar comigo
mesma durante dias e horas a fio, eu percebi, que não se trata de uma simples
atração. A atração apenas aflora quando estamos em contato com a “tal” pessoa,
pólo oposto do nosso magnetismo, e no meu caso, já existe um jardim florescendo
na distância entre nossos corpos. Não é uma mera admiração, pois quando se admira
alguém, apenas julgamos virtuosas as suas atitudes, e isso não significa sentir
saudades do perfume que ficou. Não creio que seja também uma pura amizade, já
que não tivemos tempo suficiente para estabelecer uma relação desse nível,
restando concordar com você, que, somos “amigos” somente pelas tais regras da
cordialidade. Assim como você, não quero arriscar o nome para isso.
Talvez seja, além de tudo que foi dito, algo mais.
E assim eu marco no meu calendário: são apenas 11 dias depois de você. Você terminantemente,
está impregnado em mim.
CAP. X - MOMENTO ECLÍPTICO: NOITE
SEM ESTRELAS.
16 dias depois de você.
E nessa noite sem estrelas, a
minha inspiração também se encontra nublada. Já faz quase uma semana sem
estabelecermos, sequer, um mínimo contato, e isso me faz pensar, às vezes, que
você não quer falar comigo, da mesma forma que eu não quero falar com você. Mas
será que o meu "não querer" significa realmente o mesmo que o seu? No
meu caso, o meu não-querer, não envolve falta de vontade. Pelo contrário.
Desejo, anseio e espero com todas as minhas forças que você me procure de novo,
pois só assim me sentirei à vontade para te retribuir uma conversa recíproca.
Entenda então, que o meu não-querer significa apenas, evitar, ao máximo,
qualquer tipo de envolvimento, dependência e saudade. Pra quê envolvimento, se
não haverá total entrega? Pra quê dependência, se a abstinência é tão dolorosa?
Pra quê saudade, se é ruim demais sentir falta de alguém que não poderá se
fazer presente quando mais precisamos? Mesmo incrédula por dentro, guardo num
velho baú um pouco de animação, pois quem sabe, amanhã sentirei o efêmero
prazer do nosso encontro.
Talvez, amanhã seja um dia feliz
e eu acordarei com aquela mesma sensação de estar submetida à queda livre de
uma montanha-russa. No entanto, na pior das hipóteses, o parque de diversões
dentro de mim estará temporariamente fechado por motivo de precaução, e aí, não
haverá adrenalina para se sentir - apenas a contenção de uma súbita emoção. Me
lembro que a uma semana atrás, o meu receio era de não te ver ou de demonstrar
incontroláveis sentimentos em sua presença. Hoje, além de tudo isso, sinto medo
de como reagiremos no momento inevitável do cruzamento entre dois olhares. Qual
será o grau da nossa ressaca pós-revelação? Creio que somos maduros o
suficiente para encarar isso da melhor forma possível, e amanhã terei a chance
de conhecer um pouco mais sobre sua forma de lidar com esse tipo de situação.
Já que você pediu pra eu ser "eu mesma", eu serei. Doce, plena,
límpida e sensível. Espero que não leve a mal esse meu jeito de ser, e que
compreenda se no meu olhar estiver pintada a alegria de te ter por perto pela
terceira vez em minha vida.
CAP. XI - MOMENTO ECLÍPTICO:
SINAL VERDE.
17 dias depois de você – momento
I
Acordei
a passos vagarosos. A chuva caía maravilhosamente linda, e para contrastar com
aquele céu prateado que se desfazia em gotas d’água brilhantes, escolhi um
vestido de corte reto azul marinho e uma das minhas jaquetas vermelhas
preferidas. Na boca, um batom cor de sangue reforçava meu ar confiante naquele
dia. Os momentos antecessores do nosso terceiro encontro vieram mais amenos do
que na vez anterior. Sim, confesso que senti meu coração bater mais
intensamente cada vez que chegava mais perto o momento de te ver, mas amarrei
as rédeas daquele insano coração no galho mais firme da realidade. Apesar de
tudo, na manhã daquela quinta-feira, me via tranquila no sofá da sala,
liquefeita em meus pensamentos, apenas esperando o relógio do tempo marcar a
hora de ir.
Mais
uma vez, eu estava atrasada, no entanto esse atraso não era minha culpa, haja
vista que, desde cedo, mesmo dando passos lentos pela casa, eu me arrumei de
forma rápida, chegando a pensar que fui até um pouco displicente nos detalhes
costumeiros. A chuva caiu forte dessa vez, e o meu olhar perdido pela brecha da
janela, contemplava o barulho gostoso da água encontrando o asfalto, quando,
fui surpreendida por um som diferente, sobretudo, um bipe artificial. Enquanto,
com um olhar curioso, eu me levantava para pegar o celular do outro lado do
sofá, lembrei-me, risonha, daquelas músicas que exprimem a ansiedade em receber
uma ligação da pessoa amada. Antes mesmo de visualizar o nome da tal “pessoa”
que me procurava, mesmo sabendo que poderia, de novo, me decepcionar com a
minha fértil imaginação, permiti passar pela minha cabeça que, dessa vez,
poderia ser você.
Vi
seu nome. Suspirei involuntariamente ao ler sua mensagem.
Oh
céus, me diga, por favor, quantas e quantas vezes o meu telefone tocou nessa
última semana, e eu, esperançosa, imaginava inutilmente ser você? Quantas vezes
desejei você digitando uma mensagem pra mim, e no segundo posterior, imaginei
você desistindo e apagando a mesma mensagem? Quantas vezes olhei sua foto, como
se isso fosse capaz de transmitir ao seu pensamento a energia cósmica de que eu
estava apenas esperando por você? Encontrar as respostas para perguntas como
estas que acabei de fazer, me faz ter a certeza de que a vida, em seus momentos
ingênuos, pode ser profundamente maravilhosa, e que, às vezes, basta um sinal
verde no meio de um engarrafamento caótico, para desafogar o trânsito abstruso
nas vias dos nossos pensamentos. O sinal verde certamente foi ter lido seu
nome. Minha feição se alegrou, cantarolei uma música qualquer por dentro.
Finalmente, o engarrafamento das minhas ideias estava se dissipando, e eu, me
senti a pessoa mais sortuda do mundo, apenas por estar viva e poder viver
aquele momento de alegria secreta.
CAP. XII - MOMENTO ECLÍPTICO: EU
ACEITO.
17 dias depois de você – momento
II
Finalmente
cheguei. Você estava olhando para baixo e certamente não percebeu o exato
momento em que entrei pela porta. Com papel e caneta na mão, você parecia um
colegial concentrado em sua tarefa de casa. Fiquei muito satisfeita comigo mesma,
pois, ao te olhar, enfim, minha ressaca pós-revelação foi totalmente
controlável. Me senti bem. Me senti uma pessoa normal. Passei o restante da
manhã ao seu lado, mas na maioria dos momentos, nem sequer senti o
constrangimento ao lembrar acerca do que havia acontecido a exatamente uma
semana atrás.
Registre-se
que, pela primeira vez, de modo galanteador, você me dirigiu um elogio
carinhoso, provando assim, o quanto havia reparado em mim naquele dia. Eu
estava “especialmente linda de vermelho”? Você era um gentleman, estava
comprovado. Contudo, mesmo com seu elogio inesperado, meus olhares já não
soavam tão introvertidos, até porque você, já sabia de todo o segredo incutido,
e das consequências de ter você por perto. Eu sei que eu ainda te olhava
tímida, mas você já entendia perfeitamente o motivo de tudo aquilo. Você estava
se saindo um ótimo cúmplice e isso me deixava bem mais tranquila. Conversamos
sobre planos, sobre meus sonhos, sobre a vida. Não, sei, mas tive a impressão
de estarmos mais intimamente ligados, você sendo você, e eu, simplesmente,
sendo eu. Reparei ainda no quanto você também era engraçado, e seu humor me
agradava de um jeito apaixonante.
Em
um dado momento da tarde, foi a minha vez de me sentir uma adolescente nos
tempos de colégio. Em uma pequena parte de um papel reciclado, você me fez um
convite, para quem sabe, passar um tempo ao seu lado naquela noite. Com esse
convite, você me lançou um olhar desafiador, olhar que não me canso de me
deixar hipnotizar. Seu convite era extremante perigoso, mas parei de pensar um
pouco sobre os riscos quando observei que sua letra era linda, concordando,
inclusive, com a ideia de que a caligrafia pode dizer muito sobre alguém. Após
admirar por uns segundos as curvas que davam forma às suas inacreditáveis
palavras convidativas, parei para pensar e vi que, nestes casos, quem faz o
perigo é a gente.
Ora,
me senti bem com o convite e me sentiria muito mais, se abraçasse minha tão
esperada oportunidade de estar, mais um tempo extra com você. Mais uma vez, era
pra mim, inimaginável que isso pudesse acontecer. Pensei: hoje não quero a dor
da despedida naquela esquina fria, não suportaria meu olhar vago de quem deu um
adeus cedo demais. Não hoje. Pensando no que eu NÃO queria naquela noite,
resolvi aceitar seu desafio; não sei se haveria outra oportunidade dessas na
minha vida, de descobrir, afinal, o que sinto quando estamos juntos, apenas eu
e você. Sim, meu querido, eu aceito.
CAP. XIII - MOMENTO ECLÍPTICO:
ECLIPSE DE FOGO.
17 dias depois de você – nosso melhor
momento.
Eu
já havia te dito isso: esse capítulo, apesar de ser o mais irreversível, será
também, indubitavelmente, o mais lindo de toda a nossa pequena grande história.
Não sei se terei palavras suficientes para tornar traduzíveis os acontecimentos
que só a nós pertencem, mas farei o máximo para expor em uma delicada
vicissitude implícita, a língua incompreensível do desejo que explodiu dentro
de nós. Eu e você, enfim, formamos um irrefreável eclipse de fogo. Já estava
escrito em algum lugar sublime que isso iria acontecer e foi na noite de número
17, número cabalístico da fusão de duas vidas, que eu deixei você entrar, de
vez, no meu santuário chamado coração. Assim, como nas escrituras de um ser
superior, eu acredito em um destino. Antes mesmo de te conhecer, as mãos que
delineiam os nossos caminhos, já rabiscavam alguma forma para nos colocar
frente a frente, mesmo que para isso, precisasse nos arrancar abruptamente de
um caminho que tanto nos esforçamos em seguir sóbrios.
"Hoje não quero apenas o seu
adeus na esquina". Segui você, repetindo essa frase pra mim mesma, fazendo
dessa frase o meu lema encorajador. Ficamos juntos por uns segundos, tentando
dividir um pequeno guarda-chuva debaixo de um chuvisco fino e eu, tentada por
tão pouco a te dar um abraço por cima da sua camisa molhada. Eu estava ali,
escoltando o que acreditava ser inofensivo; um sentimento inominado, mas bonito
demais para ser refutado.
Era final de tarde, e em cada rua
que passamos, tivemos de enfrentar um trânsito que, em outras circunstâncias,
já me deixou extremamente incomodada. Mas ali, na sua afetuosa companhia, indo
para qualquer lugar do mundo, pouco importava o caos. Aquele momento, se
acabasse ali, já teria valido meu dia. Enquanto arrodeávamos a cidade em busca
de um porto seguro, conversamos sobre os mais diversos assuntos, e eu realmente
gostei de ver você demonstrar grande interesse em, prioritariamente, me
conhecer. Era como se você, estivesse há dias ensaiando as perguntas para
descobrir os meus maiores e melhores segredos. É claro que eu também queria
saber muito mais sobre você, mas, naquele momento era mais fácil pra mim, dizer
o que eu pensava ou sentia, do que ter a coragem para perguntar o que você
achava sobre nós. E foi ali mesmo, naquele bate-papo informal, ao som da sua
trilha sonora particular que tanto me agradou, que colocamos as cartas na mesa.
Você ouviu minha voz confessando o quanto aquilo significava pra minha vida. Eu
ouvi sua voz admitindo, o quanto eu encantava você.
No cair da noite, encontramos um
local com uma luz amena e resolvemos ficar. Sentamos lado a lado, ilusoriamente
a sós, sob o céu estrelado daquele deserto. Nos primeiros cinco minutos,
consegui manter 20 centímetros de distância entre nossos corpos, mas depois,
senti que tocar sua mão era a oitava maravilha do mundo. Depois disso,
precisava tocá-la mais uma vez. E de novo. E novamente. Você comentou o quanto
achava minhas mãos bonitas e eu devolvi, dizendo que as suas eram igualmente
belas. O que eu nunca te contei foi que, desde a primeira vez que eu te vi, eu
achei suas mãos encantadoras e sempre tive vontade de senti-las. Permitimo-nos,
passo a passo, conhecer a sensação tátil e a troca de energia entre nossas
mãos.
Assim,
com os dedos entrelaçados, o jogo de perguntas e respostas continuou, e eu,
finalmente perguntei o que você estava achando de passar aquele momento único
com uma pessoa que vira pela terceira vez na vida. Contudo, você me surpreendeu
ao dizer que você já tinha reparado em mim outras vezes, há algum tempo, e que
até já sabia meu nome. Como nunca percebi a sua presença antes? Realmente,
nunca tinha notado você, mas de alguns dias pra cá, vejo notícias suas em todos
os lugares. Basta colocar seu nome noGoogle e lá está você: sábio menino
com grandes conquistas.
Sabe,
queria mesmo ter tirado uma fotografia nossa para registrar, pra sempre, aquela
noite inusitada. Olhando para a parede com uma gravura em estilo vintage,
imaginei que, quando eu estivesse com noventa anos, desfalecendo em um leito de
hospital, meus bisnetos me trariam uma caixa de lembranças de toda a minha
vida, e lá estaria nossa foto em um papel rabiscado e já amarelado pelo tempo:
dois jovens sorrisos, olhares brilhantes, uma possibilidade de amor nunca
concretizado. Quem sabe, olhando a imagem de você ao meu lado, eu acreditaria
que estive um dia, de verdade, com você. Sei que uma lágrima quente desceria do
meu olhar quase centenário, e eu cochicharia com uma voz rouca à minha bisneta
mais íntima: “minha filha, eu e esse rapaz de olhar gracioso, passamos por
momentos arrebatadores. Momentos como esse, fizeram, também, minha velha vida
valer à pena”.
Vale
ressaltar que enquanto conversávamos você não desviava, sequer, seu olhar de
mim. Nunca vi algo parecido. O seu olhar estava ainda mais provocante. Na sua
boca, pairava um sorriso sereno de quem sabe muito bem onde chegar. Ri, ao
comentar com você que, nós éramos o casal mais apaixonado daquele deserto,
exceto pelo fato de nem sermos um casal de verdade. Aliás, não poderia dizer também
que o termo “apaixonado” era o mais adequado, mas não achei outra terminologia
para aplicar àquela intensidade de emoções sentidas.
De
repente, você disse que queria me fazer um pedido. Um minuto de silêncio entre
nós. Após pensar um pouco, diga-se de passagem, alguns segundos, aceitei
atendê-lo, contudo, sob a condição de que seu pedido fosse algo plausível pra
mim. Você olhou para os meus lábios e inspirou o ar. Suspense. Foi chegando
mais perto, lentamente, e sussurrou no meu ouvido: "Você me permite, mais
uma vez, sentir o cheiro do seu perfume?". Te olhei aliviada, e consenti
que ajeitasse, cuidadosamente, meus cabelos para trás. E lá estava você,
experimentando a sensação olfativa de ter meu cheiro em seus pulmões. Alguns
momentos de sua respiração quente em meu pescoço foram suficientes para causar
arrepios delirantes. No último suspiro, você se afastou lentamente de mim,
olhos nos olhos, sua mão ainda em minha nuca, e eu repeti por dentro, 257
vezes:
"eu.quero.mas.não.posso.te.beijar"
Senti
aquele bendito nó na garganta de novo, aquele que me enforca e me acompanha
sempre que estou ao seu lado. Você me tranquilizou dizendo que nunca me pediria
um beijo, pois um beijo não é para ser pedido e sim, "para ser
roubado" - completei o final da frase com você. Depois que te disse isso,
providenciei trancar meu beijo às sete chaves, fechar as minhas portas e
janelas, e instalar alarmes no meu corpo que pudessem me indicar a
possibilidade de um ladrão-de-beijos se aproximando. Olhei pra você, e cruzei os
braços na tentativa de fechar meu corpo e disfarçar minha estratégia, mas
enquanto eu estava ocupada demais dando os comandos ao meu cérebro, aconteceu a
maior catástrofe temida de todo universo.
Você
achou uma passagem secreta do lado esquerdo do meu peito. Esqueci, como pude me
esquecer (...) de trancar meu coração!? E nossos lábios se tocaram, se sentiram
no sabor gostoso da curiosidade. Como num eclipse de fogo, seus lábios quentes
feito o sol se uniram aos meus lábios de lua brilhante. E cada vez mais, fui
descobrindo que sentir seus lábios nos meus, era tão maravilhoso como tentar
fugir, mas não conseguir parar de te olhar nos olhos, como ver você sorrindo
pra mim e não saber como reagir, como sentir o toque intenso de suas mãos em
meu corpo, ou, simplesmente, como ouvir você dizendo que pensou em mim e que me
deseja intensamente. Coloquei minha mão em seu coração, e senti: ele estava tão
acelerado quanto o meu.
Não
sei se você sabe, mas além de ter sequestrado meu cheiro e roubado um beijo
precioso de mim, você levou contigo o brilho do meu olhar, tomou pra si meu
sorriso bobo, e mesmo que não tenha sido sua intenção, deixou uma grande
bagunça aqui dentro. Sem perceber, nessa grande confusão, além de me roubar
quase que inteira pra você, me fez perder o único juízo que restava em mim. E
assim, depois dessa noite sob o céu de um deserto estrelado, eu não estava tão
completa como costumava ser.
CAP. XV -
MOMENTO ECLÍPTICO: EXPECTATIVAS DESLEAIS.
24 dias depois
de você.
Vai doer em mim sempre que eu
lembrar algo que você me disse no dia mais lindo do ‘nosso melhor momento’.
Após provar pela primeira vez a sensação de te dar um beijo, você admitiu,
sincero, esfaqueando com sua franqueza o meu coração: “eu não vou te ligar amanhã
para saber como você está”. Era necessário você ter me dito aquilo. Entendo que
esta seja a atitude mais apropriada a ser seguida por nós, já que nossos
contextos de vida não nos permitem trocar mensagens românticas no dia seguinte.
Concordo com você que, de fato, o limite do que vivemos se encerra no momento
do nosso abraço de despedida. Mas a dor é inconsciente, pois o que eu mais
queria, no dia seguinte, era que você me ligasse e eu te contasse, bem... te
contasse o que já nem importa mais. Assim, guardei aquilo que ainda em mim
existe, e me predispus a esperar, confiante, que no instante exato, as emoções
de hoje sequem e pereçam no amanhã.
Enfim... o nosso
quarto encontro tinha tudo para ser especial, já que a uma semana atrás,
trocamos tantas confidências, energia e calor humano. Pelo menos, dentro da
minha utópica imaginação, pensei que poderíamos nos olhar de um jeito mais doce
ou até mesmo, sensual, porque o que aconteceu naquela noite do 17º dia não foi
algo típico de um dia qualquer, pelo menos pra mim; e você, já era incomum
demais a ponto de doer lá fundo do meu peito. Mas esse quarto encontro não caiu
tão bem como eu esperava.
Senti você meio
distante, mesmo estando o tempo todo do meu lado, o que me deixou um tanto
cabisbaixa em vários momentos do dia. Não sei o que se passava pela sua cabeça,
mas na minha passava o filme da decepção por não sermos mais como os dois
antigos pombinhos das semanas anteriores. Pode até ser que eu esteja
dramatizando demais, e que pra você, este encontro, tenha sido o melhor de
todos do universo, o que eu sinceramente duvido; mas estou apenas fazendo o
registro do que eu percebi nas entrelinhas, e de fato, havia um drama muito
grande no ar. Mesmo estando tão evidente o fim que se aproximava, te mostrei o
restante do meu texto “especialmente feito pra você”,não querendo cobrar uma
aprovação sua, mas, querendo cobrar de mim, a certeza de que você saberia que
tudo o que eu vivi e senti foi intenso, puro e verdadeiro. Você leu, você
curtiu se enxergar na leitura, você sorriu aquele sorriso que eu queria tanto
que você sorrisse. Tão lindo, mas tão efêmero.
E aí, o horário
de ir embora, mais uma vez, foi chegando. Você perguntou umas duas ou três
vezes se eu estava bem. Não adiantava sorrir de mentirinha. Você sabia que eu
não estava tão bem assim. Apesar de você dizer pra mim que precisávamos
conversar, o novo convite de uma conversa informal naquela noite não surgiu.
Nada de dividir um pequeno guarda-chuva com você. Nada de ouvir sua trilha
sonora agradável. Nada de seus olhos nos meus. Eu e você, nada mais. Você não
me chamou, eu não te convidei, e arrastando uma esfera de ferro em um dos meus
pés, fui tomando o rumo de volta pra casa. Já na rua, naquela esquina fria que
tanto presenciou nossas despedidas, você disse meu nome com uma voz pálida.
Virei para trás. Você repetiu, sem graça: “realmente, precisamos conversar”.
Eu, igualmente sem graça, consenti com a cabeça: “sim, precisamos”. Mas não
conversamos. Aquele lugar era pequeno demais para o tanto de coisas incabíveis
que tínhamos pra falar. Após absorver o meu silêncio, você entendeu o recado, e
se retirou, com a promessa de que, excepcionalmente, no dia seguinte, a gente
se encontraria para alinhar o descompasso que pairava entre a gente. Contudo,
antes de atravessar a rua e me deixar sozinha, você adiantou o que nunca
deveria ter dito: “eu só não quero que você crie expectativas desleais sobre
nós.”. Disse isso com uma voz de anjo, e se foi.
Olhei pra meu
peito e vi o sangue das perspectivas frustradas escorrendo. Andei alguns metros
pra não sei onde, o sangue pingando pelo chão, e de repente, me lembrei que
precisava sair daquele lugar imediatamente. Precisava chegar o mais rápido
possível em casa, a fim de estancar aquele sangramento de expectativas
desleais. Dei meia volta tentando esconder o desgosto que pairava em meu rosto,
peguei um táxi, que poderia muito bem ter sido um avião a jato, e fui todo o
caminho calada, contendo não só o buraco no meio do meu peito, mas as lágrimas
que beiravam os meus olhos. Como não ter expectativas quando se gosta de
alguém? Alguém me ensine, por favor, a não ser desleal comigo mesma.
CAP. XVI -
MOMENTO ECLÍPTICO: A ÚLTIMA DOSE.
25 dias depois
de você.
Há anos não
tinha tido uma noite daquele nível degradante. 6 horas, e eu já estava
enterrada na cama, debaixo dos lençóis frios, rezando para que chegasse logo o
dia seguinte. 7 horas e 8 minutos, eu continuava deitada, apenas o olho direito
descoberto, encarando o teto branco e imaginando como seria a nossa futura
conversa. Dormi. Nada como 10 horas consecutivas de sono para reestabelecer
qualquer coração machucado (...) ou, bem... acho que não. Amanheceu, e como uma
mulher forte, me preparei para a nossa conversa alinhadora de descompasso. As
horas daquele dia passaram ligeiras, e não tardou para uma mensagem sua acenar,
me chamando para sair com você na hora do almoço.
Era chegado o
momento. Aquela mensagem, não me arrancou o mesmo suspiro de dias atrás, pois
dessa vez, não foi mais como um sinal verde. Foi sim, um sinal amarelo de que
eu precisava ter muita atenção ao que você estava prestes a me dizer, e de que
a razão agora deveria se sobrepor à minha frágil emoção. Conversamos,
confessamos, e resolvemos encerrar a nossa história ali, como dois indivíduos
civilizados de uma sociedade contemporânea. Apesar dos apesares, tenho que lhe
dizer que a conversa da hora do almoço me gerou um bem tão grande que me fez
levitar pelas horas seguintes daquele dia. Não houve entregas físicas, mas
foram desatados do peito grandes desabafos emocionais que, certamente, fizeram
o bem necessário pra mim e pra você.
Vi que o seu
coração não estava despedaçado como o meu, e se estava, era quase que um
arranhão imperceptível. Mesmo assim, não me importei tanto em estar em posição
de desvantagem com relação ao que você sentia; Apesar de você ter criado um
tsunami em minha vida, eu, apenas fui uma ondinha mínima no seu mar de amores
cafajestes. Embora eu não tenha gostado de escutar algumas coisas pontuais de
você, ouvi, pacientemente, tudo que precisava me dizer, pois enquanto falava,
você me ajudava, com a linha sutil das suas palavras, a costurar o que havia
feito sangrar enormemente no dia anterior.“Talvez a expressão expectativas
desleais não fosse a mais adequada para ser dita ontem”, você disse,
tentando quem sabe, me fazer sentir melhor. E assim, como se estivesse um pouco
arrependido, você tirou do bolso um pedaço do meu sorriso bobo que havia
roubado de mim há algumas semanas, bem como, me devolveu um feixe da luz dos
meus olhos me fazendo enxergar de novo, mesmo que um pouco, o meu coração
remendado em retalhos.
Depois de todos
aqueles remendos, eu estava, finalmente, me sentindo quase pronta pra outra.
Mas eu fui alertada pelo meu ego interior a ser mais prudente dali em diante.
Fui recomendada a tirar uma licença para redescobrir o sentido de ser completa,
a desintoxicar aquela sensação de apego que infeccionava meus pensamentos, a me
afastar por tempo indeterminado de você até que as cicatrizes deixadas fossem
totalmente curadas; sei que deveria tomar imediatamente uma dose do medicamento
chamado amor-próprio, mas fui totalmente inconsequente comigo mesma, quando não
segui à risca tais recomendações e resolvi, só mais um pouquinho, sentir correr
nas minhas veias mais uma dose de ter-você-comigo.
E naquela mesma
noite, nos encontramos rapidamente, e só mais uma vez, uma última vez, quis ter
você do meu lado. No entanto, era perceptível que estávamos, mais do que nunca,
em mundos opostos. Eu, com certeza, estava no mundo da lua. A cada passo que
você dava pra perto de mim, você dizia que era pra eu me afastar de você. Ao me
olhar nos olhos, você pediu pra eu esquecer tudo aquilo que eu vi de bonito
entre nós. Pegando em minha mão, você prometeu nunca mais me procurar. Os
segundos eram preciosos demais, corriam como o vento forte que levantava o meu
vestido, e eu não podia mais suportar a ideia de ouvir você dizer que eu estava
perdendo o meu tempo com você. Tive que ser muito forte para não chorar.
Enrijeci a voz. Fui embora sem me despedir de forma decente. Era como abandonar
uma criança no sereno da noite. Olhei pra trás, e vi seu rosto desapontado
chamando pelo meu, mas eu lutei, como numa guerra épica em que flechas de fogo
são lançadas por um exército de doze mil homens; lutei, com todas as minhas
forças, pra resistir a vontade de te dar um abraço apertado, e quem sabe, um
último beijo. Mais uma vez, estava sozinha, agora, sem ter mais um coração
dentro de mim. Depois de tudo que eu ouvi de você, percebi que meus danos
cardíacos eram irreparáveis. O melhor jeito foi deixar o meu coração quebrado
pular fora do meu peito, e reinventar um novo, só não sei como.
CAP. XVIII – MOMENTO ECLÍPTICO: O
MEU APRENDIZADO.
Minha
vida depois de você.
Até que nossa
história daria um belo filme. E esse seria o finalzinho melancólico que
representa aquela cena de reflexão em que a mocinha e o mocinho já estão
separados, cada um, retomando suas velhas estradas; O mocinho parece feliz, mas
há uma música instrumental de fundo, deixando evidente a tristeza da mocinha,
que aparece calada no canto de um quarto. Agora, apenas uma voz em seu
subconsciente fica narrando o que ela estaria pensando no momento, surgindo
assim, as últimas lições, a moral da história, um flashback de memória, antes
das luzes do cinema se acenderem e dos créditos passarem com aquela letra
miúda. Eis aqui, o nosso possível fim.
Este é o
capítulo mais longo, porque nunca se saberá onde realmente termina, mas que
precisa existir para demarcar os 'finalmentes', as considerações finais por
detrás dos bastidores de um curta-metragem. Este capítulo mostra ainda, o
fechamento de um ciclo, o fim do nosso momento eclíptico, momento onde dia e
noite voltam a caminhar separados. Ainda assim, você sempre será uma pessoa
eterna pra mim. E assim será minha vida depois de você. Mesmo que os anos
sobrevenham, lembrarei com benevolência daquele menino de sorriso inenarrável,
de humor apaixonante e de um olhar verde-água inédito e profundo. Não importa o
tempo que passe, seus beijos quentes sempre terão sido dos meus beijos, e
na minha memória ficará a infindável dúvida do motivo do encontro das nossas
vidas.
E afinal, o que
são onze dias? Menos que duas semanas? Um terço de um mês? Menos de um mês dentre
tantos que um ano possui? Repito: o valor das coisas não está no
tempo que elas duram. Onze dias, aqui, significaram pra mim, o marco zero de
uma impossível paixão, onze chances de aprender com você, direta ou
indiretamente, uma coisa nova a cada dia:
1.Por mais que tentemos nos
proteger, nunca estaremos preparados para o inusitado;
2. Sonhos podem se
tornar reais;
3. Nunca devemos
dizer nunca;
4. A dor de um segredo pode ser
aliviada quando este é compartilhado;
5. A gente pode se surpreender
quando compartilhamos um segredo com “alguém especial”.
6. Quando se é
transparente, não adianta ocultar a vontade;
7. O perfume de uma
pessoa tem impactos inimagináveis em nossa memória;
8. Machuca querer
ter por perto alguém que não se pode ter;
9. Só quem entende
a situação de verdade, é quem está passando por ela;
10.Nossas escolhas
podem parecer certas sob a nossa ótica, mas certamente, podem ferir de forma
incurável o coração de um terceiro;
11. A saudade carregará sempre a
inicial do seu nome.
11 DIAS DEPOIS DE VOCÊ “Porque o
valor das coisas não está no tempo que elas duram”

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