“(...) Sua forma era
perfeita. Nos moldes de um busto grego, você era esculpido em carne, osso e
sedução.”
DEDICATÓRIA
***
Dedico
estas e as próximas palavras para um alguém
especial,
fonte da minha louca inspiração e responsável por cada momento
único desta história sincera. Por você, torno eterna a
simplicidade
dos
nossos momentos compartilhados.
PRÓLOGO
***
O
que você acha de viver uma experiência diferente? Conhecer, em
detalhes e sem rodeios, o que você representou num instante da vida
de outro alguém? Como se sentiria ao experimentar ler um texto
completo, verdadeiro, um texto sobre você?
Vivemos
em um mundo com tantas pessoas artificiais, onde não se valoriza o
“ser”, mas o “ter” alguma coisa; um mundo onde se busca
apenas existir em meio ao materialismo capitalista, sem se preocupar
em fazer a diferença no coração das pessoas. A sensação que
tenho é de que, a cada dia, os seres humanos estão mais incapazes
de expressar suas emoções, seja por ausência de vontade, falta de
habilidade, ou medo da autoexposição. Confesso que carrego comigo,
em algumas ocasiões, estes contrapontos. Tenho sim, inúmeras vezes,
dificuldade de explicitar o que estou sentindo, ou em dados momentos,
acho que não é oportuno dizer ou demonstrar o que se passa dentro
de mim. O pior de tudo é quando percebo o quão arriscado é me
expor e abrir meu coração, já que a vida está cheia de pessoas
maliciosas e que não carregam em si, o mínimo de compaixão, lisura
e amor ao próximo. Mas, não é por causa disso que eu deixo de me
arriscar. Tem várias formas de se arriscar nessa vida, e a que mais
me fascina é correr o perigo de ser sincera comigo mesma. Você foi
um risco que escolhi correr, e partir do momento em que te conheci,
busquei conjugar o verbo “ser” e “ter” da maneira que
considero mais correta: “ser” a diferença, mesmo que por um
breve momento na sua vida e “ter”, para sempre, um respeitável
espaço no seu coração. Você estará para sempre marcado em mim,
principalmente a partir do 11º dia depois de você.
11
DIAS
DEPOIS DE VOCÊ
“Porque o valor das coisas não está no tempo que elas duram”.
“Porque o valor das coisas não está no tempo que elas duram”.
CAP.
I - MOMENTO ECLÍPTICO: UM FENÔMENO INEXPLICÁVEL.
Querido
alguém especial,
Você
é o único para quem eu posso confiar as palavras aqui escritas.
Ninguém mais entenderia e seria a testemunha muda de mais uma
pérfida história. Ninguém mais perpetuaria, no silêncio do tempo,
este meu depoimento secreto. Não há alguém no mundo que irá
compreender o teor das minhas intenções, muito menos, escutar-me
sem julgamentos. O fato é que, oportunidades como esta surgem de
forma tão banal, mas também sob uma nuance tão rara, que seria um
erro perder o momento exato para descrevê-lo (...) e vivê-lo.
Sinta-se honrado, se, por ventura, alguma parte de você preenche
estas velhas linhas do meu imaginário, pois isto é uma ocorrência
seletiva. O meu papel nesse mundo é oferecer, para as próximas
gerações de leitores devaneadores, um legado seleto de testemunhos,
histórias e depoimentos pérfidos, porém sinceros.
Como
dizia o poeta: “o
valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na
intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos
inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis
(...)”.
Então, por falar em coisas inexplicáveis, não
vou ficar pensando, agora, em explicar tudo que nos afastará daqui
pra frente. No entanto, prezarei em descrever aquilo que nos
aproximou no instante perpétuo e gentil em que te vi, pela primeira
vez. A meu ver, os primeiros encontros são quase sempre os mais
inolvidáveis, pois só estes conseguem misturar os aspectos
complexos e simplórios de um alguém recém-descoberto; é quase a
aparência de um eclipse em seu estágio final. A sombra vai saindo
da trama, e aos poucos, se vê todo aquele luar irradiando, um
holofote de luz retornando e insurgindo sob o céu estrelado. Para os
amantes dos eventos naturais, o encantamento é imediato. Dentro de
nós também é assim. É nesse momento eclíptico de nossas vidas
que sentimos no interior do peito, o encantamento misturado a quatro
sensações cíclicas e inusitadas: ansiedade em se aproximar,
curiosidade em descobrir além, medo em se revelar e decepção por
não poder voltar atrás.
CAP.
II - MOMENTO ECLÍPTICO: ANSIEDADE EM SE APROXIMAR.
Dia
em que conheci você - momento I.
Senti
o seu magnetismo chegar mais perto de mim, quando, de repente, nossas
órbitas se cruzaram como num raio potente. Este foi o momento da
“ansiedade em se aproximar”. Seus olhos verde-água, redondos e
pequenos, mas irresistivelmente intensos, até que tentaram
contrafazer o brilho efusivo daquela lua cheia. Além disso, o seu
sorriso (...). Há muito tempo não via algo parecido.
Ah,
o seu sor-ri-so!
Poderia
ficar horas narrando acerca daquele seu jeito inenarrável de sorrir,
da forma belissimamente arredondada dos dentes e da habilidade em se
revelar suavemente modesto. Havia delicadeza e masculinidade
entrelaçada no sorriso de um menino, e havia ainda, tanta coisa a
percorrer naquele universo desconhecido. Além de tudo, sua forma era
perfeita. Nos moldes de um busto grego, você era esculpido em carne,
osso e sedução. Apenas uma aproximação certeira poderia me dar a
chance de curar esta ânsia. Vagarosamente, você se permitiu se
aproximar de mim. Simpático, do meu círculo de amigos, foi você
quem fez questão de se integrar, deixando em mim, uma sensação
quase óbvia de que eu também faço parte do seu mundo. Ali, já não
havia fronteiras socioeconômicas, não existia sequer hierarquia:
nós éramos dois simples jovens, apenas, nos permitindo a primeira e
irresistível aproximação.
Rompido
o lacre da timidez, finalmente me senti pronta, naquele mesmo dia,
para tentar uma conversa amistosa com você. Rondei o ambiente com o
meu olhar, e, querendo, mais que sem querer, fui notada
por você, que percebendo a minha vontade de chegar perto novamente,
me laçou uma corda e me puxou para o seu lado. Foi então, que a
“curiosidade em descobrir além” do que se podia ter naquele
momento, foi arrebatada dentro de nós dois. A tarde passou lenta,
mas a hora de ir embora chegou cedo demais. Estava me dirigindo às
escadas, mas instintivamente dei uns segundos de pausa, na esperança
de você surgir pela porta e eu poder te olhar pela última vez,
naquele dia. Você demorou pouco mais que um minuto, tempo suficiente
para eu me sentir uma tola; mas quando eu me inclinei quase que
imperceptivelmente, na direção de ir embora, você ressurgiu e fez
questão de me acompanhar até a separação figurativa dos nossos
destinos.
Descemos
a escada. Eu na frente, você logo em seguida. Não quis dar na cara
me-importar-tanto-com-sua-presença. A multidão que estava conosco,
aos poucos se dissolveu, e de forma engraçada, apenas eu e você
continuamos a andar para a mesma direção na rua. Andamos, lado a
lado, por breves minutos, mais da metade do tempo, silenciosos.
Trocamos breves palavras, até que, por fim, nos despedimos como bons
amigos. Não olhei para trás. Comecei a achar, ali, que eu não
estava sozinha naquela errada desilusão.
CAP.
III - MOMENTO ECLÍPTICO: CURIOSIDADE EM DESCOBRIR ALÉM.
Dia
em que conheci você - momento II.
Horas
depois, no auge da noite, você ainda estava dominando os meus
pensamentos. Foi quando resolvi sondar mais um pouco seu
mundovirtual, podendo descobrir, inclusive, ínfimos detalhes
da sua vida. Meu dedo titubeou várias vezes em te convidar para
fazer parte da minha rede de amigos, no intuito de “formalizar”
tudo que havíamos construído naquela manhã e tarde, mas de fato,
achei melhor deixar pra lá. O que você iria pensar de mim? Ponderei
que seria mais interessante esperar você tomar essa atitude, apesar
de eu não possuir um pedacinho de esperança de que você estaria
com essa intenção. No entanto, enquanto eu internalizava a barreira
por mim mesma criada, um clique foi dado do outro lado da cidade. Meu
coração disparou. Senti algo brilhar dentro de mim.
Era
você.
Se
fosse permitido desejar o que você estaria pensando naquele exato
momento, eu seria um tanto ambiciosa se imaginasse que, assim como
eu, você também estava com saudades do que nunca poderia ter? Nos
quatro segundos posteriores, finalmente entendi: nem tudo era 100%
imaginação, era um sinal de que estávamos conectados. Da mesma
forma que hesitei em tomar a atitude inicial, optando,
consequentemente, por não ser a primeira a oficializar a vontade de
descobrir além do já que tinha visto até ali, também considerei a
ideia de não aceitar o seu convite, assim, de imediato. Pensei,
durante segundos, que, se eu quisesse, poderia te deixar anos-luz
esperando por uma resposta minha, no entanto, lembrei que essas
táticas de guerra só servem para serem usadas quando se pretende
avançar em uma conquista. Você não era, nem de longe, a minha
presumível conquista. Então, lembrando-me de todas as
impossibilidades do mundo, resolvi dizer “sim” ao seu pedido.
Disse um sim, e também não disse mais nada. Nem você. Ficamos em
um silêncio virtual. Dormi rapidamente, imersa nesse sigilo, apenas
pensando como seria dali pra frente.
CAP.
IV - MOMENTO ECLÍPTICO: MEDO EM SE REVELAR
02
dias depois de você.
Aquela
situação acordou comigo e me trouxe reflexos internos um tanto
incômodos. O silêncio era angustiante, e eu sentia que precisava
inventar forças para falar com você de novo. Todos os recursos
tecnológicos estavam à minha disposição. Mas esperei passar um
infindável dia, para quem sabe, escolher um meio para
restabelecermos a conexão. Dois dias depois de você, “o medo em
se revelar” era cruel e me apunhalava cada vez que eu via seu nome
e seu número de telefone em cima da minha mesa. Na intenção de
retribuir sua gentileza em ter dado o primeiro passo, te escrevi uma
mensagem simbólica e cordial: um smile de sorriso
contido e bochechas coradas era a minha forma de tentar receber um
novo sinal seu. Mensagem recebida. Quatro minutos depois, você
digitou meu nome seguido de uma interrogação. Você queria
acreditar que era eu mesma (...) e eu? Queria apenas acreditar que
estávamos nos falando novamente.
Das
palavras lidas, passamos, rapidamente, para as palavras escutadas.
Precisava, de qualquer forma, continuar falando com você, e desta
vez, resolvi te ligar. O meu foco ali era especificamente resolver
assuntos pendentes de trabalho, e eu precisava ser o máximo formal
que conseguisse transparecer. Contive-me e represei minha doçura,
mas do outro lado da linha, eu podia sentir sua voz suave, me
atiçando ao soar o mais charmosa possível. Não sei se você fez
isso de propósito, mas o seu sotaque nativo conquistou de vez a
minha preferência, me fazendo, inclusive, ter a certeza que aquele
timbre suave ficaria gravado em mim. Pouco após desatar daquele
diálogo e dizer um engasgado “até logo”, você ainda arriscou
colocar uma cereja em cima daquele delicioso bolo, e escreveu uma
nova mensagem pra mim: “bom falar contigo”. Minha intuição não
mente, aquilo não era unilateral.
CAP.
V-MOMENTO ECLÍPTICO: DECEPÇÃO POR NÃO PODER VOLTAR ATRÁS.
09
dias depois de você.
Na
verdade, nunca quis escrever esse tal capítulo “decepção por não
poder voltar atrás”. Nunca quis mesmo. E apesar de a angústia do
silêncio ter adormecido dentro de mim, sei que ela tem sono leve.
Vez ou outra, abria os olhos quando lembrava o ruído que faz o seu
sorriso, bem como, sentia-me só sem sua suposta presença irreal.
Durante alguns dias, entramos em um acordo tácito, nos permitindo
assim, ficar calados por uma semana. Apesar de um lado meu não
concordar, a minha metade racional tinha a certeza que era melhor
assim, até porque palavras podem ser muito profundas, a ponto de
trilhar caminhos que jamais poderão ser apagados. Não sei o que
pensar sobre o dia de amanhã. Amanhã, literalmente, vou te
encontrar mais uma vez, pela segunda vez na minha vida.
Olhando
pelo lado realista do caso em questão, devo considerar o ímpeto de
você não aparecer amanhã, e além de tudo o fato arriscado de que
o meu coração possa ficar desolado sem a sua presença. Devo me
preparar pra isso, mas não há preparo que me livre do risco de ter
o coração acelerado, caso eu reencontre você no meu caminho. É um
tanto perigosa a ideia de que eu seja pega no flagra quando estiver,
distraída, olhando pra você, apenas no intuito de me lembrar de
como é ver o seu rosto de verdade. É, e eu achava que seria
fácil, assim. Como disse, o momento eclíptico é cíclico e
inusitado, até que por fim, a luz do sol ou da lua se revele por
completo. O inusitado representa o que sentiremos na presença ou na
ausência um do outro. E o ciclo, certamente, não acabará por aqui.
Talvez,
amanhã ainda exista muita ansiedade em se aproximar, demasiada
curiosidade em descobrir além, um constante medo em se revelar, que
encontrará seu ponto auge na decepção injustificada de não poder
fazer mais nada, além de tentar sobreviver feliz.
No
escuro de uma sala fria, descobri que ia te ver pela segunda
vez, e no dia seguinte, antes mesmo de sair de casa, a vontade de te
olhar de novo já me consumia de um jeito que me dava medo. Um fogo
gelado derretia, sem pena, o suor em minhas mãos. Sentia uma leve
dor no estômago, como se eu estivesse subindo a maior montanha russa
do mundo. Cheguei ao topo, 1000 metros do chão, pernas cambaleantes,
e me bateu um desespero gostoso em pensar que em pouco tempo
sentiria sua presença novamente. De repente, um apagão, um lapso de
memória extinguiu a certeza do meu próprio eu, mas no meu
pensamento ainda restava a dúvida de você. Abri os olhos por 2
segundos, enchi o peito com um ar sufocante, e a
montanha-russa
despencou a mais de 140 km/h. Assim, nessa velocidade nervosa, batia
o meu coração sem fôlego. E ainda eram 6 da manhã.
CAP.
VI - MOMENTO ECLÍPTICO: MAIS UM ADEUS DA LUA.
10
dias depois de você - momento I.
Naquele dia
de sol esplendoroso, cheguei atrasada. Você supostamente havia
guardado o meu lugar. Aliás, pelo menos, foi primeira a impressão
que eu tive quando, ao me ver, você me mostrou a única cadeira
vazia ao seu lado. A segunda impressão arrebatada em mim foi o aroma
do seu perfume perfeito, o qual exalava naquela sala com vinte e oito
pessoas. Não quero nem saber qual era o nome, a marca ou as
essências misturadas naquele frasco, ou muito menos se ele era
importado e francês. Só quero entender, apenas, como o seu perfume
conseguiu se ajustar tão maravilhosamente ao cheiro da sua pele.
Ouvir sua voz de novo era como estar escutando minha música
preferida, mas já doía demais a saudade que sentiria de você mais
tarde. Era como ouvir uma canção de amor na solidão de um recente
abandono. Devo confessar. Você me surpreendeu tantas vezes em um
único dia, que das duas uma: ou eu estava muito sensível às suas
ações, ou você agiu, de fato, do modo mais sensível e bonito que
um homem poderia fazer.
Como explicar
aquele momento em que você me olhou nos olhos de um modo tão
profundo e eu, de um jeito confuso, malmente fui capaz de concluir
uma sílaba? E todos aqueles seus sorrisos tão seus, especialmente
pra mim? E aquelas piscadas de olhos de embrulhar meu coração? Como
você explica quando você declarou, em um tom lascivo, o quanto você
me amava, só porque eu fui gentil em te ajudar? Todos esses momentos
me deixaram sem graça, sem jeito, sem saída. Você acariciou minha
mão, com aquele olhar carente, na frente de tanta gente. Não queria
tirar minha mão dali, mas com toda vergonha do mundo, tive que
fazer. Senti um nó na garganta. Acho que algumas vezes repararam o
quanto estávamos tão próximos nesse reencontro, não apenas de
corpo, mas com nossas almas dançando juntas, quase que inseparáveis,
no ar.
Quando eu
soube que você poderia partir mais cedo, imaginei minha tarde triste
e sem razão de existir. Quase pensei em ir embora também, no
intuito de embriagar-me com minha própria dor. Não tem como
explicar a sede que eu senti por dentro. Olhei o relógio diversas
vezes, mas quando você voltou por aquela porta, era como se você
abrisse os limites de uma represa e fizesse correr um rio de água
potável em minha direção, apenas para saciar minha vontade, há
dias ignorada. Engraçado que fiquei distante de você por duas
décadas, suportando sua ausência nunca percebida, e de repente, uma
hora pareceu mais de um milênio de aflição.
E eu que
pensava em não escrever mais nada sobre nós dois, e encerrar num
ponto final, a nossa felicidade, acabei reiniciando todo o momento
eclíptico. Isso me fez querer organizar um amontoado de pensamentos
que inundaram minha mente, tão logo depois que você foi embora, de
verdade. Achava que, depois do dia de hoje, eu não teria muito que
contar, mas aqui estou, sentindo como se tivesse feito uma grande
viagem lunar e inesquecível, tirado fotos jamais vistas sob o ângulo
dos meus olhos, e que, sinceramente, deixou a memória da minha
câmera fotográfica alarmando a falta de espaço.
Quero
descarregar nossas fotografias nunca tiradas.
Vale
ressaltar ainda que, para meu contento, você descobriu minha
tatuagem, em que "simplicidade" optei por eternizar nos
meus poros. Te expliquei todo o significado da minha escolha e talvez
você tenha gostado mesmo do que viu ali. Não sei se seus olhos
mentiram pra você, ou se apenas quis usar um trocadilho pra me
entreter, mas você jurou que no meu tornozelo estava escrito
"sedução". Acho que foi sua forma de dizer que eu te
seduzi, jogando o jogo contra mim. Não importa tanto agora (...). Eu
sei, apenas, que foi o contrário: você, busto grego de um deus do
Sol, seduziu e aliciou o meu coração, dilacerando qualquer
esperança que eu tinha de ser uma pessoa melhor.
CAP.
VII - MOMENTO ECLÍPTICO: A REVELAÇÃO DO SOL.
10
dias depois de você - momento II.
E
novamente, naquele fim de tarde, você tomou seu rumo, atravessou a
rua, logo depois que me deu um beijo doce no rosto. Minha visão
embaçou e o nó na garganta me enforcou ainda mais, que eu até
agora não sei como consegui ter voz para te dizer "até mais"
com um gosto amargo de "mais uma semana sem você". Andei
sem rumo pela rua, e até coloquei os óculos de grau só para ver se
enxergava além da visão do adeus que se perpetuava em minha frente.
Era oficial. Acabava de entrar em seu universo desconhecido, e estava
perdida. Cheguei em casa e não queria ver, falar, e amar ninguém. O
café desceu frio e o meu olhar aguado espiava o celular de 20 em 20
segundos pra checar se alguma novidade surgia. Você tinha sido visto
pela última vez às 16h59 e já eram quase 20!
Meus
dedos passeavam inquietos pelo touchscreen, como se eu
quisesse achar, naquele movimento convulso, alguma resposta para o
meu problema. Depois de cansar de olhar fotografias velhas, te mandei
uma mensagem, querendo te mostrar um pouco mais de mim, mas depois,
lamentei ter feito aquilo. Engoli a seco. 22 horas e nada. Nada de
sono, nada de sossego, nada de certeza do que eu estava prestes a
fazer. Até que eu vi que você estava escrevendo... Você me
respondeu. O meu cérebro, em êxtase ao ler o que você acabara de
escrever, não recebia correntes elétricas suficientes para
dissociar o certo do errado.
Eu
estava completamente embriagada pelo momento. Virei o copo invisível
de uma só vez. O raciocínio lento, a impulsividade à flor da pele
e, aconteceu: escrevi coisas sobre mim, coisas sobre você, abri o
jogo com toda a sinceridade que não cabia mais no meu peito.
Continuei olhando com os olhos vermelhos e fixos para aquela
mini-tela, grande janela do mundo. Mas, acredite, eu nem te mostrei
1% do brilho do sol que havia dentro de mim naquela noite. Depois de
tudo que leu, apenas um trecho do que escrevi sobre nós, você ficou
sem palavras, e eu, a circular pela casa, não sabia o melhor
esconderijo pra mim. Senti minhas mãos trêmulas tentar encerrar
aquela confissão tarde da noite, tarde demais.
CAP.
VIII - MOMENTO ECLÍPTICO: AS PRIMEIRAS VERDADES.
10
dias depois de você - o nosso momento.
Então,
abrirei aqui, um breve e necessário parêntese para relatar como foi
esse indescritível momento das nossas primeiras verdades. Sabe
aqueles dias em que achamos melhor contar algo pra alguém do que
morrer reprimido com tantas insanidades na cabeça? E melhor: quando
resolvemos que a melhor pessoa para dividir o tal segredo é o
principal envolvido secreto? Aconteceu, simples assim. Não sou
daqueles que fica guardando pra si um sentimento. Se vejo a
oportunidade bater à porta e a necessidade já não caber mais em
mim, eu acho um modo melhor de me renovar, externalizando aquilo que
tanto me incomoda, e isso significa dividir minha consternação com
alguém especial. Se é pra dividir com alguém, por que não com a
aquele que move toda a minha inspiração? Pode até ser que esse
processo seja doloroso, demorado e que me gere algum tipo de remorso.
Quem sabe aconteça logo, um tanto rápido, e demore pouco mais de
uma semana para vir à tona. De repente, posso até ser mal
interpretada, mal vista ou mal correspondida. Mas de uma coisa eu
tenho certeza: a minha sinceridade sentimental tem dois lados, e o
melhor deles permite que eu seja autêntica, sem medo de arriscar
naquilo que considero certo. Meu melhor lado não usa máscaras. Se é
pra ser transparente com o que meu coração acredita, eu serei de
forma sutil e ponderada, mas não perderei a chance de abrir meu
coração. E é isso que eu espero do outro também.
E assim, foi... Depois de algum tempo, tentando desenrolar um emaranhado de ideais a me machucar por dentro, arrisquei um papo reto com você, mesmo que ele se transformasse em um catastrófico monólogo entre eu e minha decepção. Resolvi te mostrar um pouco mais da minha cultura útil e acrescentei, na tentativa de aguçar sua curiosidade, que você teria a chance de ler um texto sobre você. Digitei aquilo e, logo em seguida ao envio, mordi os lábios de arrependimento. Mais de duas horas depois, para o meu alívio e contraditória inquietação, você deu continuidade àquela discussão de relacionamento nunca existente e sem a mínima chance de existir. Meu celular continuava em uma das minhas mãos quando vi sua resposta vibrante, dizendo que adoraria descobrir um pouco mais do meu lado artístico. Demorei cinco minutos para digerir qual o próximo passo eu iria dar. Te contar a verdade? Sim ou não?
Certo,
e se eu resolvesse te falar toda a verdade, iria te contar de que
jeito? Tentei sondar o seu nível de maturidade para receber uma
notícia reveladora, e assim expus, um tanto acanhada, que o momento
oportuno seria eu achar que não era errado demais te mostrar além
do que você presumivelmente já poderia saber. Queria ter, pelo
menos, um pouco mais de certeza por qual ângulo partiria sua
interpretação. Receptivo, você se esforçou em se mostrar
realmente curioso e compreensivo. Na minha imaginação, o seu
semblante possivelmente carregava um daqueles sorrisinhos de canto de
boca. Gostei de imaginar você envolvido naquela conversa.
Após
sentir um pouco mais de confiança em suas palavras, a partir do
momento em que você garantiu que a sua interpretação seria a
melhor possível, colei na tela da nossa conversa, um texto inacabado
sobre nós. Aquele trecho era o mais apropriado, profundo e
confidencial que poderia te mostrar naquele momento. No entanto,
mesmo sendo apropriado, eu acabara de escrever ali, a minha sentença
de vida ou morte. Daquela quebra de sigilo, surgiu a sua primeira
expressão reativa. Num tom surpreso, você soltou uma interjeição
afável, assumindo, inclusive, que ficou sem palavras, bem como,
admirado com o que eu tinha escrito sobre nós dois. Por outro lado,
você disse ter ficado “menos surpreso” do que deveria. No
primeiro instante, li
aquilo e me senti muito bem, afinal, você poderia reagir
negativamente e isso não seria nada legal. E, tenho que convir que
você foi, vamos dizer, muito agradável em sua reação inicial.
Contudo,
depois que reli o que você havia
acabado de afirmar no final da sua última frase, te perguntei
bastante curiosa, qual o motivo de você ter ficado “menos
surpreso”. Meu coração gelou, ao imaginar o que você queria
dizer com aquilo. Queria rir por dentro, mas resolvi não
interrompê-lo. Você continuou, concordando que era uma
sensação boa, gostosa, de “dois
jovens, um conhecendo o
outro”. Permaneci calada e você continuou, fazendo trincar ainda
mais o gelo no meu coração: “senti nos seus olhos, no seu
comportamento, hoje, uma receptividade.
Só isso.” As palavras receptividade e
comportamento significaram uma metralhadora destruindo,
em milésimos de segundos, a minha bolha de proteção. Quer dizer
que eu não sei mesmo esconder o que estou sentindo? Me senti
vulnerável, exposta e transparente
demais. Você pareceu não ligar tanto para as minhas justificativas,
e continuou de um modo sutil e cavalheiro: “Fiquei muito surpreso
pela sua espontaneidade, mas nem tanto por você ter sentido isso.
Simplesmente porque eu também
senti. Sou jovem também. Tenho sonhos, tenho vontades. Acho que você
me entende”. Por fim, meu
corpo soltou faíscas brilhantes.
Sim,
eu te entendo.
Continuei
a ler, e os meus olhos se agigantaram quando você me chamou pelo
nome, como se eu fosse o vocativo de alguma frase importante, e
completou “você é uma menina interessante.
Aprecio
sua simplicidade, com acento de coração no "i".
E
sua sinceridade.”
O seu discurso foi primoroso. E eu, coitada, não consegui sustentar
por muito tempo a minha postura de
o.que.eu.estou.sentindo.não.significa.nada.pra.mim
Nessa
tragédia da sinceridade, ainda desabafei, dizendo que eu iria
tentar te olhar de outro jeito das próximas vezes. Disse isso, mesmo
sem saber de qual jeito exatamente estava te olhando. No meio da
minha própria confusão, você tentou aliviar o ar de tensão e
disse com um ar leve e jocoso: “Faz o seguinte: seja você.
Somos colegas. Amigos,
ao menos pelas regras da cordialidade.” Não
entendi muito bem que regras da cordialidade você estaria se
referindo, e apenas, concordei sem acrescentar mais nada. Entendendo
que, devido às circunstâncias, o assunto deveria ser encerrado,
você, cumprimentando-me cordialmente, ressaltou ter sido, mais uma
vez, um imenso prazer falar comigo. Respondi um educado
“igualmente”, contendo meus
dedos para não escrever mais nada. Espirituoso, você ainda
finalizou: “no próximo dia que a
gente se encontrar, não se sinta mal, eu não mordo (...) Bons
sonhos.”

Amei *-* muito fofo S2
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