Começo aqui, de maneira inédita e reveladora, a ter suficiente audácia para expor um ponto de vista, ainda em contínuo desenvolvimento, e que de fato, é um mote polêmico e resignado por tantos tetos de vidro. Citarei assim, no intuito de ilustrar esse começo de conversa, uma reflexão impactante incitada por Jetsunma Tenzin Palmo, em uma entrevista recente. Quando questionada sobre a diferença entre o amor romântico e o amor genuíno, Jetsunma defendeu metaforicamente que o apego diz “eu te amo, por isso, eu quero que você me faça feliz”, enquanto o amor genuíno diz tão-somente “eu te amo, por isso quero que você seja feliz. Se isso me incluir, ótimo. Se não me incluir, eu só quero sua felicidade”. Difícil colocar em prática estas metáforas surreais. A partir do pressuposto de que existe o amor romântico, apegado à própria noção íntima de felicidade, e consequentemente, notoriamente egoísta e ofuscada (...) bem como, sabendo-se que o amor genuíno é, de tão sublime, uma quase utopia aos olhos dos insensíveis, me permito voltar no tempo e nos erros, e lembrar que, é imprescindível garantir abertura satisfatória na nossa alma para que ocorra a necessária e constante evolução conceitual. A evolução faz sofrer no presente, mas imagino que seja necessário o abandono do casulo para aliviar sofrimentos posteriores de uma borboleta que já não cabe mais dentro de uma casca moral.
Há alguns anos, antes de passar por certos impasses na vida amorosa, eu acreditava que para ser A-M-O-R de verdade, a gente não poderia ter olhos para mais ninguém. Se a gente não pode, quiçá o parceiro que resolvemos estabelecer uma relação ou conexão amorosa. Ciúmes, possessividade, apego, amor romântico. E, caso isso acontecesse... Sinto muito, meu caro, estava decretado: não é amor, é ilusão. É isso que as músicas românticas nos ensinam, é isso que o cinema dramático encena, é isso que a sociedade pudorada nos impulsiona a pensar e acreditar, indo contra a nossa própria natureza humana. Afinal, o que nos ensinam na escolinha da vida é que quem ama de verdade, não irá se interessar com toda a força e sinceridade da alma, por mais ninguém neste planeta azul. Certo ou errado?
Errado.
Não sei de onde me veio toda essa minha descoberta efusiva, já que nem sequer, sou uma mulher vivida, especialista e madura neste tal assunto que se chama "amar". Mas, tenho nesse ¼ de vida romanticamente vivida, todas as evidências de que o amor não é isso. Apesar de complexa e contraditória a abrangência desse conceito, vou ser audaciosa também em definir, o que eu acho que seja o amor, entre, a princípio, seres de sexos opostos:
Amor é o interesse mais limpo que se tem por alguém, é sentir uma pessoa pulsar involuntariamente dentro do coração. A pessoa não fez nada. Só te olhou de um jeito infantil, mas fisgou os seus mais profundos pensamentos. Aquele olhar te persegue noite e dia. Aquele olhar você carregará na eternidade das suas lembranças. Esse olhar é o amor. Amar é desejar aquela pessoa dia sim, dia não. Ou dia sim, dia sim. Depende da intensidade da paixão que se instala dentro de nosso peito. Amor é doar-se verdadeiramente, é querer saber sem podar, é querer bem sem ver a quem, é saudade que dói incontrolável e irremediável, ou nem saudade é, que chegamos a pensar que é apenas dor. Mas é amor. Amor não tem nada a ver com paixão ou compaixão, isso você já deve estar cansado de saber. Mas o que muitos não sabem, ou resistem e insistem em não querer saber, é que podemos amar verdadeiramente mais de uma pessoa, talvez. Uma com mais intensidade que a outra. Mas assim, acontece, e amamos. Uma de um jeito sutil, outra de um jeito selvagem. E creia. Isso não tem nada haver com cafagestagem. Bem... Cafagestagem existe sim. E muito. Cafagestagem é querer iludir, é se entregar por puro prazer e não se importar com o sofrer alheio, é querer ser o garanhão-pegador-partidor-de-corações-sinceros, aquele que quer todo mundo sem amar ninguém, sem amar nem a si mesmo. E claro que tem aqueles que estão no meio termo. Também não posso gerenalizar, pois cada um tem sua opção de vida amorosa, e quem sou eu, para rotular alguém. Não se sintam ofendidos, isso aqui não é uma indireta. Apenas estou fazendo uma análise, ao grosso modo. Eu disse que era complexo. Acabemos por aqui a descrição sobre o amor.
Mas aí, vem a parte pior. Aí, vem a parte que dói. Pra que você queira que uma pessoa aceite o seu modo de pensar, você tem que se colocar verdadeiramente no lugar dela. E se Mariazinha se apaixonasse por outro cara, mas pedisse seu perdão, confirmando que te ama? O que você faria? Se Joãozinho se entregasse ao amor de outra mulher, você deveria expulsá-lo de casa? Calma, calma. Se quisermos ser compreendidos, devemos compreender o outro também. Nessas horas, devemos ser frios e entender: o que houve foi cafagestagem ou houve algum sentimento envolvido? Não estou pedindo pra que você aceite viver num relacionamento aberto. Nem todos nasceram para isso. Eu acho que também não nasci. Apesar de poder existir esse tipo de relação em qualquer rua respeitável, a maioria dos casais vive em outro contexto cultural. Aliás, eu ainda vivo nesse contexto e ainda acho que traição é uma palavra pesada, assim como câncer, morte e estupro. Traição é cafagestagem. O resto... Bem... O resto pode ser um amor inevitável, incontrolável e inerente à natureza humana. As pessoas não entenderão isso. Um Deus supremo não entenderá isso. Às vezes, nem eu entenderei isso. Vivemos entre a felicidade de amar plenamente e a abstinência de um amor que morre calado. E isso é mais comum do que se pensa.
Concluo assim, parafraseando um caro amigo que certa madrugada me fez refletir, com um ar de conclusão de assunto: “Sabe, temos de aprender a viver o que existe, o presente, sabendo que nada é pra sempre, e que cada momento é um momento lindo, justamente, por não ser eterno. Devemos compreender que cada segundo é belo e precioso, seja lá com quem for. Que durante aqueles anos, meses, dias ou mesmo segundos foi verdadeiro e, legítimo, e sincero. Estamos aqui pra ter essas vivências, experiências, sem a certeza do que estar por vir, sem ao menos nos conhecer perfeitamente. Nascemos com uma única certeza, de que sozinho viemos e que ao pó retornaremos”. É quase uma loucura. É preciso muita coragem pra ser feliz, já que quando se tem mais experiência, tudo nos cobra mais segurança, o que nos faz carregar um fardo muito mais pesado de arrependimentos. Isso claro, se você não for um cafageste. E aí, no final da conversa, dá até vontade de mudar o título do texto para Dilema Moral. Mas não, falarei de amor que é mais bonito. O amor, amigos, não é singular. É plural.

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